Archive for the OPINIÃO Category

São Paulo, cidade conservadora?

Posted in OPINIÃO on 20 de Novembro de 2008 by os.maias

Leôncio Martins Rodrigues


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Confirmada a derrota de Marta Suplicy para a Prefeitura da capital paulista, alguns intelectuais petistas atribuíram a vitória de Gilberto Kassab (de “direita”) a suposto conservadorismo e preconceitos do eleitorado paulistano. Na interpretação petista, esses setores conservadores e preconceituosos estariam localizados basicamente nas classes médias e altas, porque, como se sabe, as classes populares não têm preconceitos nem são conservadoras. Em outras palavras: transferiu-se a responsabilidade pela derrota a um segmento do eleitorado que não teria nenhum motivo válido para rejeitar a candidata do PT. Está implícito que os paulistanos não saberiam votar. Na visão petista, a cidade mais cosmopolita, moderna e dinâmica do País seria fundamentalmente conservadora e preconceituosa.

Entendem-se a frustração e o ressentimento dos que são derrotados, mas a interpretação petista parece-nos dificilmente sustentável e não ajudará o PT em futuras disputas. Façamos em breve retrospecto dos resultados anteriores nas disputas pelo controle do Poder Executivo paulistano. Tanto em termos das fontes sociais de recrutamento para a classe política como do ponto de vista dos partidos e coligações vencedoras, as elites paulistas quatrocentonas foram perdendo espaço no sistema de poder para elites vindas das classes empresariais de imigração recente e das classes médias e trabalhadoras. Em outros termos: o sistema político paulistano vem-se tornando mais democrático e mais plural. As disputas tornaram-se mais competitivas, mais “técnicas”, mais “profissionais” e dominadas pelo marketing político. Fortuna pessoal, origem familiar, cor da pele, status social e outros signos dignificantes, em São Paulo, não são mais garantia de êxito para nenhum político.

Não há nada de extraordinário nessa evolução do sistema político paulistano. De modo geral, a distribuição do poder na cidade de São Paulo seguiu a rota habitual da circulação das elites analisada por muitos sociólogos e cientistas políticos. Repete-se aqui o movimento observado em outras democracias. À medida que nos encaminhamos em direção a uma sociedade de massas e a um sistema eleitoral de participação total, o poder tende a passar do círculo restrito das famílias patrícias para os empresários self-made men, os homens de negócios. Numa terceira etapa, o sistema político abre-se para os ex-plebeus vindos das classes médias ou das classes trabalhadoras – uso aqui os termos de Robert Dahl usados em sua pesquisa sobre a circulação do poder na cidade de New Haven, EUA, (Who Governs? Democracy and Power in an American City), Yale University, 1961.

Em São Paulo, com exceção do caso de Antônio da Silva Prado – indicado prefeito pela Câmara Municipal e que governou de 1899 a 1911 -, houve cinco prefeitos eleitos por voto “popular”, todos vindo de famílias da chamada oligarquia paulista. A Revolução de 30 pôs fim à prática de eleições para o governo da cidade. De 1930 até 1953 os prefeitos foram nomeados pelos interventores e, depois, pelos governadores. Mas continuaram a vir das famílias paulistas tradicionais.

Em 1953 o Congresso restabeleceu o sistema de eleição popular para a Prefeitura. Jânio Quadros, do PDC, venceu a eleição com o apoio de um pequeno partido, o PSB. A vitória de Jânio, político vindo das classes médias, que nem paulista era, representou a primeira brecha no poder oligárquico e inaugurou, em São Paulo, o estilo populista de fazer política, com muita demagogia orientada para capturar principalmente eleitores de baixa renda.

Depois de 1953, o voto popular vigorou até 1969, quando, sob o regime militar, os prefeitos voltaram a ser escolhidos formalmente pelo governador. Paulo Salim Maluf foi o primeiro prefeito nomeado (1969) e Mário Covas, o último (1983). O enfraquecimento do poder oligárquico paulista prosseguiu sob o regime militar. A presença de prefeitos de famílias paulistas tradicionais diminuiu, enquanto ascendiam os de origem sírio-libanesa e italiana. Mas todos vinham das classes ricas. De 1955 a 1986, revezaram-se no poder municipal patrícios e empresários, para seguir com os termos do cientista político norte-americano. Citemos alguns nomes, sem preocupação de ordem cronológica: Figueiredo Ferraz, Olavo Setúbal, Reynaldo de Barros, por um lado; Paulo Salim Maluf, Miguel Colasuonno, Salim Curiati, por outro.

Localizando sociológica e ideologicamente (e de modo extremamente esquemático) os que foram vencedores, o resultado é uma lista política e socialmente heterogênea: um professor de colégio, mato-grossense de nascimento, de classe média e difícil definição ideológica e partidária (Jânio da Silva Quadros); uma candidata de “esquerda”, de classe média pobre, solteira, nascida em Uiraúna, na Paraíba (Luiza Erundina de Souza); um rico empresário paulistano de “direita”, de origem árabe (Paulo Salim Maluf); um candidato negro de classe média alta, também de “direita” (Celso Roberto Pitta do Nascimento); uma candidata de “esquerda”, de classe alta tradicional (Marta Teresa Smith de Vasconcelos Suplicy); um candidato de “centro”, de classe média baixa, de origem italiana (José Chirico Serra); e por fim um candidato de “direita”, de classe média alta, de origem árabe (Gilberto Kassab).

O exame da relação dos políticos eleitos depois do retorno da eleição popular para prefeito não revela a predominância, na capital paulista, de um eleitorado preconceituoso e conservador, mas sim de um eleitorado politicamente volátil, que tem passado por cima das classificações ideológicas usuais e de preconceitos vinculados às características pessoais dos políticos, como etnia, gênero, renda, origem familiar, local de nascimento, etc. Esse eleitorado, que tem variado em suas escolhas, pode ser tudo, menos conservador ou preconceituoso, a não ser que esses termos fiquem reservados para classificar os que não votam nos candidatos petistas.

Leôncio Martins Rodrigues é professor aposentado dos Departamentos de Ciências Políticas da USP e da Unicamp

Para ressuscitar desta hecatombe Marta terá de respeitar eleitores

Posted in OPINIÃO, POLITICA on 29 de Outubro de 2008 by os.maias

Um tiro no pé de salto alto

José Nêumanne


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Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstrou muita sagacidade quando disse, ao votar em São Bernardo, que ele mesmo não foi derrotado na eleição de domingo, já que nenhum candidato falou mal dele explicitamente. Foi esperto, mas também foi verdadeiro. Da mesma forma como verdadeira é a afirmação de seu principal adversário político hoje no País, José Serra (PSDB), ao constatar, de forma cartesiana e quase acaciana, que o presidente não foi derrotado, pois não foi candidato. René Descartes e o conselheiro Acácio usariam o argumento para concluir que, por igual razão, o governador de São Paulo não pode ser apontado como o maior vitorioso no pleito de domingo. De fato, o maior dos vencedores foi o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que esmagou sua adversária, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT), sob uma avalanche impressionante, ao estabelecer uma vantagem de 1,3 milhão de votos sobre ela, superando o feito de Serra quatro anos atrás.

Esta só será, porém, uma meia-verdade se quem a proferir não reconhecer a participação efetiva do titular da chapa pela qual Kassab chegou à Prefeitura da capital há dois anos. A gestão municipal atual atende pela denominação Serra-Kassab pelo óbvio motivo de que, mesmo sendo de partidos diferentes, o prefeito reeleito manteve as diretrizes do antecessor em praticamente tudo, a exemplo do que Geraldo Alckmin havia feito no Estado com o legado que recebeu de Mário Covas. Mas entre reconhecer esta obviedade e estabelecer qualquer conexão entre os resultados municipais e o que ocorrerá nas campanhas estaduais e federal de 2010 vai uma larga e tortuosa distância. Kassab poderá até cumprir sua promessa de trabalhar pela candidatura do tucano à Presidência, mas não basta ter triunfado agora para vir a ungir sozinho o vencedor de daqui a dois anos. Jânio derrotou Fernando Henrique numa eleição municipal, mas se aposentaria depois, enquanto o derrotado seria duas vezes presidente da República. Maluf elegeu-se prefeito e fez de um poste chamado Pitta o sucessor, mas nem por isso voltou ao governo do Estado pelo voto ou teve condições de disputar para valer o troféu federal. Serra ganhou a disputa estadual saindo da Prefeitura, mas só isso não bastará para realizar suas altas pretensões.

Quanto a Marta, bem, a ex-prefeita acaba de mostrar que tem alguma dificuldade para perceber os fatos políticos e aprender com eles. Há quatro anos ela era aprovada pela maioria do eleitorado no dia da eleição, mas perdeu-a para o ex-ministro da Saúde que, dois anos antes, havia sido derrotado por Lula na disputa pela Presidência. Em vez de fazer uma autocrítica penitencial de sua arrogância imperial, que era desconhecida da maioria dos paulistanos antes de sua plena exibição no exercício do poder no maior município do País, ela preferiu jogar a culpa da aparente contradição nas costas largas do eleitorado. Nunca teve coragem de dizê-lo explicitamente, mas se comportou de maneira a fazer crer que considerou a população ingrata por tê-la preterido ao mesmo tempo que a aprovava. E, após o fiasco nas urnas, correu da cidade, relegando-a à própria falta de sorte nos últimos meses da gestão, em fatídico exercício de uma vingança mesquinha e pouco inteligente. Teria contribuído para reduzir a alta rejeição que interrompeu uma gestão aprovada pela maioria se tivesse agido com mais humildade e sabedoria, purgando os próprios pecados para poder agora ressurgir das cinzas.

Beneficiária do hábito de Lula de dar prêmios de consolação a companheiros recusados pelo eleitor, assumiu o Ministério do Turismo e exibiu indelicadeza, desprezo pelo desconforto alheio e autoritarismo na famosa sentença – “relaxa e goza” – disparada contra as vítimas do Caos Aéreo Nacional, de plena responsabilidade do governo federal. A frase teria tudo para ornar sua lápide política se não fosse pelo fato de o forte PT não ter outro nome para a Prefeitura e ela e seus companheiros acreditarem piamente na amnésia crônica do eleitorado. Erraram: estilhaços da frase infeliz a prejudicaram.

Mas os tucanos ajudaram o PT a avaliar mal as chances dela quando, numa insensibilidade incrível, lançaram candidato próprio numa disputa que até os postes sabiam que se travaria entre Marta e o prefeito. Isso, porém, não ficou claro no início da campanha porque o eleitor não identificava a gestão municipal, que aprovava, com Kassab, mas com o número um da chapa dos dois em 2004, Serra. Só que um eficiente trabalho de comunicação, capitaneado pelo jornalista Luiz Gonzalez, tratou de colar a figura do prefeito na gestão. Alckmin ajudou na tarefa: além de se pretender candidato da situação se opondo ao prefeito, um breve contra a lógica, o ex-governador mirou neste para garantir a passagem para o segundo turno e, então, se aproveitar da rejeição da ex-prefeita. Com isso ajudou a fixar na memória do eleitor a identificação de Kassab com a gestão iniciada por Serra. Tudo funcionou com tal sincronia que, para espanto generalizado, Marta, que chegou a pensar em ganhar no primeiro turno, ficou em segundo, com Kassab à sua frente. Esta surpresa desestabilizou a campanha dela a ponto de levá-la a estraçalhar o próprio currículo de defensora das minorias ao permitir em sua propaganda eleitoral uma insinuação insidiosa sobre o estado civil e a falta de prole do adversário: um tiro no pé calçado em salto alto.

O sórdido lance sibilino pode até não ter produzido todo o efeito maligno que se imagina na avalanche de votos que sepultou suas intenções de voltar à Prefeitura já. Devem-lhe ter sido mais fatais sua fé na transferência de prestígio de Lula para ela e a estratégia estulta, do ponto de vista da comunicação, de “desconstruir” o adversário atribuindo os próprios preconceitos ao eleitorado. Agora, para sobreviver a esta hecatombe Marta terá de aprender a respeitar os adversários e, sobretudo, os eleitores.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista
do Jornal da Tarde

Sobre o Seqüestro da Adolescente Eloá

Posted in CRIME, OPINIÃO on 22 de Outubro de 2008 by os.maias


Mais um caso policial vive seu momento de glória.

Penso que estamos em um tempo em que todo fato está sendo transformado em um grandioso show. São tantos os meios de comunicação, (mídias, para melhor entendimento), são tantos os canais de TV, estações de rádio, tantos jornais, revistas, sites, blogs, canais interativos… que é preciso fazer notícia; é necessário criar MUITA NOTÍCIA. Natural, sinal da contemporaneidade quando os avanços tecnológicos acontecem cada vez mais rapidamente.

A grande questão porém é essa interatividade. Essa possibilidade de se dar opinião oferecida por esse avanço tecnológico, que acaba fazendo de todos especialistas em tudo. Além de juiz de futebol (que sempre fomos) agora somos médicos, advogados, promotores, psicólogos, jornalistas etc. No caso do recente seqüestro, com triste desfecho, apontam-se culpados como se fosse fácil indicar os culpados por um caso como esses e com tanta rapidez. Traçam-se perfis psicológicos e classificam os envolvidos em patologias como se isso fosse possível de ser feito sem os procedimentos técnicos mínimos.

Eu fico aqui refletindo e me perguntando. Será que o comportamento daquele seqüestrador não teria sido outro, se não houvesse tanto “aparato midiático” em torno dele? “Panela em que muitos mexem ou sai insosso ou sai salgado”. E em casos como esse, são muitos os que mexem mesmo. Cada comentário, cada opinião que vem da mídia, verdadeiramente influencia a ação dos envolvidos.

Não teria o seqüestrador, com menos pressão e uma menor exposição, tido reação diferente? A amiga da menina seqüestrada teria voltado para as mãos do seqüestrador, não fossem os holofotes voltados para ela? Será que a negociação apenas entre “polícia e bandido” não teria dado um melhor desfecho?

E não falo da resposta comportamental apenas dos diretamente envolvidos no seqüestro. Fico imaginando como se sente uma equipe policial diante desse “aparato midiático”. Sim, eles se sentem pressionados. Tudo bem, é o trabalho deles e eles têm que estar preparados pra isso, mas a pressão tem sido excessiva gente

Mas tudo na sociedade atual é descartável. Daqui a um tempo (curtíssimo) esse caso vai cair no esquecimento mesmo. Foi assim com os recentes casos da menina Isabela, do menino João Pedro, da Gabriela… e de tantos outros.

Faz falta um ministro

Posted in OPINIÃO on 21 de Outubro de 2008 by os.maias


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O Brasil precisa com urgência de um ministro da Fazenda. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dispensou esse auxílio nos últimos dois anos e meio, desde a substituição do ministro Antonio Palocci. Pôde fazê-lo porque as condições da economia global eram muito favoráveis, o dinamismo interno permitia ao Tesouro uma arrecadação crescente e o Banco Central (BC), agindo com autonomia de fato, embora não de direito, manteve a inflação controlada. Mas o cenário mudou. Hoje, os brasileiros precisam tanto de um executivo de fato na área fiscal quanto de um presidente disposto a levar a sério a crise global e suas conseqüências para o País. O presidente agora parece, embora com certa relutância, reconhecer algum risco para o Brasil. Se americanos e europeus importarem menos, os problemas, admitiu, poderão chegar até aqui.

Mas não basta esse reconhecimento, assim como não basta sua crença, quase mística, no imenso poder do mercado interno. Se a economia crescer menos do que os 4,5% previstos na proposta orçamentária, a arrecadação poderá ficar abaixo do valor previsto. Uma inflação maior poderá contrabalançar esse efeito, pelo menos em parte, contribuindo para abastecer o Tesouro. Mas essa hipótese não dispensa o governo de refazer suas contas e de repensar a programação financeira para 2009. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, admitiu numa entrevista ao Estado a hipótese de uma revisão. O relator-geral do projeto de orçamento, senador Delcídio Amaral (PT-MS), foi além: chamou a atenção para a conveniência de cortes no gasto programado, de preferência no custeio, e teve a iniciativa de completar suas informações e sua avaliação do quadro com uma visita ao presidente do BC.

Já o ministro da Fazenda insiste na exibição de otimismo, como se nada muito preocupante ocorresse no mundo. “Não estamos a salvo, mas ainda não vejo necessidade de revermos projeções”, disse o ministro numa entrevista à Folha de S.Paulo. Segundo ele, a provável desaceleração do crescimento econômico – de cerca de 6% para 4% em 2009 – já era esperada antes da crise. Isto é, para ele, se essa diminuição já era esperada antes da crise, a atual mudança no cenário global não faz diferença. O que é um absurdo.

Nessa entrevista, como em várias outras, o ministro Mantega insistiu na repetição de algumas noções e de alguns dados bem conhecidos: o País tem reservas cambiais, está mais preparado para um choque externo, o grande problema imediato é a falta de liquidez e medidas estão sendo tomadas para eliminar esse inconveniente.

Toda essa conversa, nesta altura, apenas comprova a desproporção entre os novos desafios e as qualificações do ocupante do Ministério da Fazenda para enfrentá-los. Para começar, há um contraste clamoroso entre as preocupações demonstradas pelo ministro Paulo Bernardo e pelo senador Delcídio Amaral e a atitude quase debochada do ministro Mantega em face do cenário de riscos para o Brasil.

Em vez de advertir o presidente de que ele erra ao atribuir ao mercado interno poderes quase mágicos, ele endossa o erro. O Brasil já tem um buraco na conta corrente do balanço de pagamentos. Esse buraco poderá aumentar perigosamente se a demanda interna crescer com vigor, em 2009, e o descompasso entre exportações e importações aumentar.

Certo está o BC ao prover financiamento para os exportadores. Certo estaria o resto do governo, se estudasse como conciliar algum crescimento interno com a preservação da solidez do balanço de pagamentos. As pessoas sensatas não são gratuitamente pessimistas, como dá a entender o ministro. Também não torcem contra o governo nem contra o Brasil, como insiste em dizer, em seus destemperos demagógicos, o presidente da República.

“Sou corintiano e keynesiano desde criancinha”, disse Mantega na entrevista citada. Keynesianismo não quer dizer irresponsabilidade, nem leniência inflacionária, nem negligência diante dos sinais de perigo. São essas, no entanto, as atitudes costumeiramente exibidas pelo atual ocupante da Fazenda. Pior que isso: são atitudes cada vez mais valorizadas, na administração federal, desde o afastamento do ministro Palocci. Na ausência dele, sobraram como defensores da sensatez, no primeiro escalão, o ministro do Planejamento e o presidente do BC. Isso não basta para um país ameaçado por uma crise externa de grandes proporções.

Acordo ortográfico é para promover dicionários

Posted in CULTURA, OPINIÃO, POLITICA on 1 de Outubro de 2008 by os.maias

Link permanente Abuso ortográfico

por Daniel Piza,

Foi machadianamente irônico ver que ontem, no centenário de morte de Machado de Assis, o presidente Lula, cercado dos fardados da ABL, assinou o tal acordo ortográfico. Podem-se até discutir os méritos das mudanças. O trema já tinha sido abolido por muitos, o acento em palavras como “vôo” não tem função (lembro que Monteiro Lobato propunha a extinção de muitos acentos, exceto em palavras como “é”), etc. Mas a questão não é essa. O que está por trás é o desejo de alguns editores de explorar mercados em outros países lusófonos, e os primeiros livros – didáticos – já estão aí para garantir os lucros. Quem diz que esse acordo vai facilitar o ensino do idioma e aproximar os povos é ingênuo ou é político. Veja as novas regras do hífen: se as velhas já eram confusas, agora tudo ficou mais difícil ainda. Eliminar consoantes mudas também é miudeza; não por acaso isso não existe entre ingleses e americanos, que admitem uso de “theater” e “theatre”. E você já leu um livro do bom Mia Couto? Ao final é necessário um glossário com os termos moçambicanos que desconhecemos. Detalhes de acentuação vão ajudar? Mia Couto, por sinal, adora a literatura brasileira, foi influenciado por Jorge Amado e Guimarães Rosa e os leu sem uniformização nenhuma. Esse acordo é para promover dicionários, não o idioma.

O ministro trapalhão que só faz espuma

Posted in OPINIÃO on 23 de Setembro de 2008 by os.maias
Ruth de Aquino

Revista Época

RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

Ele tem 1,90 metro, é gaúcho e suas trapalhadas começam a embaraçar o presidente Lula. Convocado em julho de 2007 para resolver o caos aéreo, sua primeira exigência – não cumprida – foi em causa própria: aumentar o espaço entre os assentos dos aviões, porque suas pernas não cabiam. Entrou pisando forte e falando grosso. Na semana passada, enrolou-se todo nos grampos das maletas da Abin. Bateu de frente com um general, não provou suas acusações. E, para coroar, agora quer mudar a lei e obrigar jornalistas a revelar fontes.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, de 62 anos, precisa de umas férias em sua cidade natal, Santa Maria, para dar uma boa olhada na biruta dos aeródromos e perceber para onde os ventos estão soprando. Ele contribuiu para afastar Paulo Lacerda da cúpula da Agência Brasileira de Inteligência, ao garantir que os equipamentos da Abin podiam, sim, ser usados para fazer grampos. O general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, irritado, desmentiu Jobim e afirmou que as maletas eram destinadas a “varreduras”. Isso quer dizer que os equipamentos da Abin só checariam a existência de escutas telefônicas. Félix disse que entregou os laudos do Exército a Jobim. E Jobim, sem laudo e sem provas, tirou o corpanzil fora. Mostrou somente fichas técnicas no site da empresa que fabrica as maletas de grampo. Foi primário.

Para compensar a gafe e angariar apoios, apontou a metralhadora giratória para o inimigo comum e conveniente nessa hora: a imprensa. Na CPI dos Grampos, pediu aos deputados que considerem se “a liberdade é a mesma coisa que a irresponsabilidade”. O ministro quer evitar vazamento de dados. Para dar mais peso ao discurso, usou mais um daqueles verbos que dizem tudo e nada. Jobim deseja “relativizar” o sigilo da fonte jornalística. Quem criou o conceito de “democracia relativa” foi o general Ernesto Geisel, que governou o país de 1974 a 1979. E foi rebatido genialmente por Ulysses Guimarães: “Se não existe o substantivo, que importa o adjetivo!”. Agora, virou verbo.

Nelson Jobim precisa de férias para olhar a biruta
dos aeródromos e perceber para onde o vento sopra

Não sei não, mas a impressão foi que, sem ter como voltar atrás nem ir adiante em suas acusações à Abin, Jobim resolveu desviar o foco e dar munição aos jornais. Pedir o fim do sigilo da fonte garantiria umas manchetes indignadas e passageiras. Seu desempenho decepcionante na CPI ficaria relegado a segundo plano.

Jobim gosta de cavar manchetes. Quando foi nomeado, prometeu cumprir os três maiores princípios da aviação comercial: “Segurança, regularidade e pontualidade”. Até aí, tudo bem, uma profissão de fé. Mas as histórias de atrasos de vôos e descaso com passageiros persistem. O que foi feito exatamente, em um ano da atual gestão, para melhorar a precisão nas torres de controle aéreo e evitar colisões ou quase-acidentes por erro do controlador? Ninguém sabe.

Uma de suas primeiras espumas foi o tal “espaço vital” entre as poltronas dos aviões. Ninguém acha que os aviões brasileiros são exemplo de conforto. Mas era agosto de 2007, logo após uma tragédia aérea em Congonhas que traumatizara o país. Não fazia sentido o ministro da Defesa exigir uma “definição imediata” das companhias sobre o espaço entre assentos. Lula, com menos de 1,70 metro de altura, deve ter dado uma cutucada em Jobim, porque ele nunca mais tocou no assunto.

Jobim de vez em quando tem rompantes. Recentemente, como se não houvesse problemas suficientes em sua pasta, engajou-se numa campanha. Tornar ainda mais obrigatório o serviço militar obrigatório. Jobim quer nas fileiras do Exército jovens de classe média, de classe alta, mesmo que se alistem depois de formados na universidade. “Hoje, o número de rapazes que entram (no Exército) para ter o que comer e onde dormir é cada vez maior”, disse. Ele acha que a presença de jovens ricos nos quartéis, num país desigual como o Brasil, seria um “nivelador republicano”. Além de relativizar, o ministro quer nivelar.

Lula, que tal perguntar ao Jobim por que ele não se cala?

Saramago fala em blog sobre exumação de García Lorca

Posted in OPINIÃO on 21 de Setembro de 2008 by os.maias

Espanha, onde vive escritor português, debate recuperação de restos mortais de um de seus maiores poetas

Da Redação, com EFE


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Federico Garcia Lorca

Reprodução

Federico García Lorca

MADRI – O corpo do poeta Federico García Lorca, fuzilado nos primeiros dias da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), poderá ser exumado em breve, após sua família aceitar depois de muita resistência, a recuperação de seus restos mortais. O caso ganhou enorme repercussão na Espanha e inclusive um post do Nobel José Saramago em seu recém-lançado blog O Caderno de Saramago.

Veja também:

link Blog de José Saramago forum

García Lorca, um dos maiores nomes da geração literária do 27, foi fuzilado na madrugada de 18 de agosto de 1936, junto com outros três homens, um professor primário e dois bandarilheiros (o toureiro que maneja a capa), por um grupo de falangistas que apoiavam o golpe militar do general Francisco Franco contra o governo da II República.

Todos eles foram enterrados em um barranco, onde se considera que jazem os restos de mais de mil pessoas que se revoltaram contra o governo, durante e depois do confronto civil na província de Granada, no sul da Espanha, onde atualmente há um parque em memória das vítimas.

Até agora, a família que constituiu uma Fundação com o nome do autor de Poeta em Nova York, havia rechaçado as iniciativas para exumar os restos do poeta, mas o desejo dos familiares e de seus companheiros de identificar e recuperar seus entes queridos mudou definitivamente as coisas.

No passado dia 12, a família de Dióscoro Galindo, o professor assassinado e enterrado ao lado do poeta formalizou diante de um tribunal sua petição para que seus restos sejam exumados. Esse pedido, que será julgado pelo juiz Baltasar Garzón, se estende ao toureiro Francisco Galadí e de seu companheiro Joaquín Arcollas, que não teve descendência.

Laura García Lorca, sobrinha-neta do poeta, assegurou que a família não poderá fazer objeção à abertura da fossa, se assim considerar necessário a Justiça espanhola, mas reiterou que continuam contrários a que os restos do poeta sejam removidos do lugar onde estão.

“Não queremos nem podemos nos opor a uma decisão judicial, mas queremos deixar clara nossa posição, como temos feito sempre”, disse a sobrinha-neta em declarações à EFE. O temor principal, segundo explicou a família em um comunicado, é que o processo de exumação de Federico García Lorca se torne um “espetáculo de mídia”.

A família expressou na nota seu “respeito” àqueles que querem identificar seus antepassados e sublinhou seu apoio à iniciativa de investigação das circunstâncias da morte de todos os que foram assassinados pelo franquismo (1939-1975). No entanto, e apesar da última palavra depender de uma decisão judicial, os familiares de García Lorca reiteraram seu desejo que consideram “tão legítimo como o de otros familiares”, de que os restos do poeta “repousem para sempre onde estão”, como uma forma de “preservar o barranco de Víznar como lugar da memória coletiva, pública e civil”.

A notícia sobre a eventual exumação dos restos mortais de García Lorca tem um significado especial entre os milhares de casos de vítimas da Guerra Civil e do franquismo, cujos cadáveres continuam enterrados em fossas sem identificação. As iniciativas a favor da recuperação desses restos mortais reivindicados por familiares ganhou forte impulso desde o dia 1.º, quando o juiz Garzón pediu a diferentes instituições que dêem dados sobre mortos e desaparecidos durante esses anos, na maior investigação sobre o assunto jamais feita na Espanha.