A santa virou demônio




Da Redação – 04/09/2009

BOSTON – Existem algumas semelhanças nas biografias do presidente Lula e da senadora Marina Silva.

Ambos nasceram muito pobres. Ele no agreste pernambucano e, ainda garoto, viajou com a mãe e os irmãos para São Paulo, em um “pau de arara”, como gosta de enfatizar, dramatizando os fatos.

A senadora, com cara de santa, até parecida com as imagens de Nossa Senhora, nasceu tão ou mais pobre do que ele. Veio ao mundo no meio da floresta Amazônica, em um seringal distante e inóspito, onde viveu até pouco depois dos 15 anos. Órfã de mãe, muito cedo, como filha mais velha, ajudou a cuidar dos oito irmãos mais novos, enquanto trabalhava auxiliando o pai no seringal e na roça. Uma hepatite grave, confundida com uma malária, foi o que a retirou do meio da floresta, quando foi fazer tratamento em Rio Branco, onde viveu em um convento e quase se tornou freira. Além daquela enfermidade, carrega as marcas e os resquícios de uma lista de outras doenças que a acometeram: cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. É uma sobrevivente. O seu físico, sua aparência é a prova cabal disso.

O garoto Lula também “comeu o pão que o diabo amassou”, para sobreviver na sua selva que era e é a área metropolitana de São Paulo. Vendeu balas nas ruas, foi engraxate, teve outros diversos trabalhos e pequenos empregos, antes da idade adulta.

O jovem Lula se alfabetizou em um grupo escolar, ainda garoto.

A jovem Marina se alfabetizou depois dos 15 anos, enquanto convalescia de uma outra hepatite, em Rio Branco, através do antigo programa de alfabetização conhecido como Mobral.

A partir daí surgem as diferenças nas biografias.

A então ainda jovem Marina, já casada e mãe de um filho, resolveu prosseguir com os estudos, enfrentando exames supletivos, até cursar a universidade e se tornar professora.

O operário Lula apenas se qualificou profissionalmente, como torneiro mecânico, através de curso no SENAI.

A condição de semialfabetizado que o presidente Lula tanto faz questão de enfatizar não é uma decorrência das dificuldades que a vida lhe ofereceu e teve de enfrentar a ferro e fogo. Transformando-se em líder sindical, aposentado no emprego e durante todos os anos anteriores à sua investidura na presidência a República – mais de trinta anos – poderia ter estudado. Para tanto tinha condições e tempo disponível. Não o fez porque não quis. Por pura preguiça, ou, já imaginando, quando se iniciou na política, usar como engodo para o destacar dos demais mortais, duas dificuldades que teria superado até chegar à presidência: não estudou além do curso primário e é um ex-operário.

Isto lhe rende dividendos políticos e amealha simpatia, no Brasil e no exterior. O baixo nível de alfabetização é frequentemente usado pelo presidente nas comparações que tem mania de fazer entre ele e os seus antecessores.

O presidente Lula tem mandato ainda até final de 2010, pretende eleger sucessora a candidata que entronizou e, dizem os entendidos, tem planos de voltar à presidência em 2014.

A senadora Marina militou durante mais de trinta anos no Partido dos Trabalhadores. Ou seja, desde logo após a fundação, enquanto o presidente Lula foi um dos idealizadores e fundadores.

Até o início do segundo mandato do presidente Lula, petistas, lulistas e governistas de modo geral viam a senadora Marina como o padrão da perfeição. Sua imagem angelical era destacada como um ícone, símbolo da pureza.

No entanto, não se submeteu às investidas da toda poderosa Chefe da Casa Civil e candidata proclamada, contrariando-a em suas pretensões eleitoreiras, a pretexto de impulsionar o PAC. Mantendo suas convicções, foi defenestrada do Ministério do Meio Ambiente.

Começou, então, entre petistas, lulistas e governistas, a tentativa de deslustrar a figura padrão de perfeição política e ética, até então cultivada. Mas, ainda era tolerada.

Agora, tendo se desligado do PT e ingressando em outro partido, transformou-se, aos olhos daqueles que a veneravam, em verdadeiro diabo.

A figura do demônio se sobrepõe à imagem antes santificada, a partir de quando se cogita do lançamento da candidatura da Senadora Marina à presidência da República.

O enfrentamento é tido pelos lulo-petistas como uma heresia, uma blasfêmia, um pecado capital.

Dos cochichos recentes, agora a diretriz é deslustrar a figura, como já vem sendo feito nos setores mais influentes do PT e do governo.

Há, no entanto, um erro de avaliação. A investida contra a senadora Marina assemelha-se ao uso do canhão para enfrentar uma formiga.

Sim, a imaginária candidatura à presidência não passa de uma utopia. O Partido Verde e todos aqueles de boa fé, decepcionados com as bandalheiras do governo e do setor político, que já se proclamam eleitores da Senadora Marina, não terão, em nenhuma hipótese, o poder de enfrentar e vencer o rolo compressor, a máquina já lubrificada que levará a candidata do presidente Lula à vitória nas eleições de 2010.

Aliás, em recente entrevista, a senadora Marina destacou que o principal alvo de sua eventual candidatura são os jovens. Pretende fazê-los “reencontrar a utopia”, imaginando que pode “mobilizá-los em favor do Brasil”.

É uma quimera inexeqüível. Mas ela pode tirar votos da toda poderosa candidata oficial. Isso pode! E não é por outro motivo que resolveram demonizá-la.

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