Dias de Glória


Glória Perez, a mais polêmica novelista brasileira, fala sobre TV e como superar a morte

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10.08.2009 | Texto por Ricardo Calil

Glória com os filhos Daniella e Rodrigo, no Rio, começo dos anos 70; na pág. ao lado, na década seguinte, início de carreira de novelista

Glória com os filhos Daniella e Rodrigo, no Rio, começo dos anos 70; na pág. ao lado, na década seguinte, início de carreira de novelista

GLÓRIA PEREZ PERDEU SUA MESTRA NA TV PARA UM CÂNCER, SUA FILHA PARA DOIS ASSASSINOS E UM DE SEUS FILHOS PARA UMA SÍNDROME RARA. NESTE ANO, DESCOBRIU E RETIROU UM LINFOMA NA TIREOIDE. NUNCA ENTREGOU OS PONTOS, NUNCA PAROU DE TRABALHAR. EM MEIO AOS CAPÍTULOS FINAIS DE CAMINHO DAS ÍNDIAS, A MAIS POLÊMICA NOVELISTA BRASILEIRA DIZ QUE QUIMIOTERAPIA NÃO É UM BICHO DE SETE CABEÇAS E QUE CONTINUA COM TESÃO PELA VIDA

Personagens que vão do Rio de Janeiro ao Marrocos, aos Estados Unidos, à Índia e a Dubai como se pegassem a ponte aérea para São Paulo. Que são entendidos em português em qualquer parte do mundo. Que saem dançando sem motivo aparente. Cigano Igor, dona Jura, boi Bandido, Murilo Benício clonado, Márcio Garcia dalit, inshalás e are babas.

Em tempo de novela de Glória Perez, o Brasil parece se dividir em dois grupos: os que se viciam em suas invenções e os que desdenham seus delírios (muitos destes, é bem verdade, não perdem um capítulo). Se você faz parte da turma que acha a obra da novelista absolutamente inverossímil, prepare-se para uma surpresa: a vida de Glória é muito mais.

Glória Maria Ferrante Perez nasceu em 1948 em uma Rio Branco (AC) que ela define como “uma clareira em meio à floresta amazônica”, povoada por gente que era filha do boto, apanhava do caboclinho da mata e via nas ruas os contorcionismos da menina borracha. Uma cidade quase isolada que fertilizou sua imaginação para toda uma vida, ao lado dos livros que devorava na biblioteca do pai, juiz federal e escritor. “Tudo que é extraordinário para os outros sempre foi natural para mim”, explica.

A autora de novelas como O Clone, América e Caminho das Índias, vista diariamente por mais de 50 milhões de brasileiros, só foi conhecer um aparelho de televisão com 16 anos, quando se mudou para Brasília com a família em 1963. Foram necessários outros 20 anos para que ela – já casada e com três filhos, formada em história e morando no Rio – começasse a escrever seu primeiro folhetim para a TV. Glória nunca tinha assistido a uma telenovela inteira, mas foi convidada para ser colaboradora de Janete Clair em Eu prometo, em 1983; com a morte da rainha do gênero antes do fim, terminou a obra sozinha, em uma passagem de cetro involuntária.

Depois de outras novelas de sucesso na Manchete (Carmem) e na Globo (Barriga de aluguel), veio o momento mais trágico e absurdo de sua vida – e esse ninguém desconhece. Em meio às gravações da novela De corpo e alma (1992), Daniella Perez, filha de Glória que interpretava Yasmin, foi assassinada aos 22 anos a golpes de tesoura por Guilherme de Pádua, seu par em cena, e pela mulher deste, Paula Thomaz.

“A JANETE CLAIR ME DISSE: ‘VOU TE DAR MAIS RESPONSABILIDADE PORQUE NÃO SEI SE VOU CHEGAR AO FIM DESSA NOVELA, MAS QUERO QUE ELA CHEGUE AO FIM'”

Como se não bastasse enfrentar publicamente a maior dor que pode ser infligida a um ser humano – a perda repentina e brutal de um filho –, Glória teve que lidar com lances de surrealismo bem brasileiros. De um lado, o cardeal dom Lucas Moreira Neves veio a público insinuar que Glória era coautora do crime, por escrever para um meio que demoliu “os mais autênticos e inalienáveis valores morais”. Do outro, uma facção criminosa lhe escreveu uma carta prometendo eliminar os assassinos da filha assim que ela falasse uma palavra específica em qualquer entrevista para a TV.

Em vez de ceder à vingança ou à prostração, Glória mergulhou no trabalho, voltando a escrever sozinha a novela dois dias depois do assassinato, e na luta contra a impunidade, iniciando uma campanha que transformou o homicídio em crime hediondo. Seu ex-marido Luiz Carlos Saupiquet Perez, pai de Daniella, nunca conseguiu sair do luto: morreu de leucemia dois anos depois da filha. “Ele não aguentou a dor da morte da Dany. Definhou.”

A perda de Daniella não seria a última vez que a ordem natural da vida – os pais morrerem antes dos filhos – se inverteria na trajetória da novelista. Em 2002, seu caçula, Rafael, que nasceu com uma síndrome raríssima que dificultava sua fala e seus movimentos, morreu aos 25 anos com uma infecção. “Dor não se compara, mas há uma diferença grande em perder um filho por causas naturais ou porque dois psicopatas decidiram assim”, afirma Glória, mãe de mais um filho, Rodrigo.

Neste ano, Glória teve de encarar mais uma vez a ideia da finitude – desta vez, porém, olhando no espelho. Em abril, ela passou por uma cirurgia de urgência na tireoide para a retirada de um linfoma, do mesmo tipo do que acometeu a ministra Dilma Rousseff. A doença não se espalhou pelo corpo, mas o médico da novelista preferiu recomendar seis sessões de quimioterapia preventiva.

Como na época da morte de Daniella, Glória decidiu não parar de trabalhar. Continuou escrevendo sozinha os capítulos de Caminho das Índias, inclusive no consultório do médico, em dia de sessão. Até o dia 11 de setembro, quando a novela termina, os telespectadores terão garantidas suas doses diárias do estilo Glória Perez, a mais controversa novelista brasileira em atividade.

Entre os capítulos da novela e as sessões de quimioterapia, Glória arranjou tempo para responder a uma série de perguntas da Trip por e-mail e para um encontro ao vivo em seu escritório com janelas abertas para Copacabana, fotos de Daniella na tela do computador e uma frase de Nelson Rodrigues afixada junto a sua mesa de trabalho: “Só os imbecis têm medo do ridículo”.

Aos 61 anos, solteira, Glória fala com a franqueza de quem já perdeu muito e tem pouco a esconder. Com uma peruca que adotou depois do início do tratamento, ela fez apenas um pedido ao fotógrafo: “Quero aparecer sorrindo, não quero nada triste. Estou numa fase boa. A novela está fazendo sucesso, e o susto inicial com o linfoma passou. Não quero que ninguém associe quimioterapia com morte. Ela não é o bicho de sete cabeças que eu pensava”. Para Glória, não é sua obra e sua vida que soam inverossímeis neste momento, e sim a morte.

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