Wagner Moura é um belo Hamlet, mas Thiago Lacerda é uma força da natureza

por Luiz Carlos Merten,

Luchino Visconti nunca perdoou a viúva de Albert Camus, que não lhe permitiu fazer ‘O Estrangeiro’ como queria, levando para os anos 60 o romance que havia lido em 1942, um ano emblemático, aquele de ‘Obsessão’. Francine Camus exigiu dele uma fidelidade estrita, absurda. Nada poderia ser modificado da letra do livro. Preso por contrato a Dino De Laurentiis, Visconti fez o filme que pôde e, para complicar, teve de substituir Alain Delon – o seu Mersault – por Marcello Mastroianni, que não conseguia ver no papel, apesar de todo o esforço do (grande) ator. Mas Visconti era louco por Camus. Em 1942, na aurora do existencialismo e em plena guerra, ele dizia que os homens, os artistas se interrogavam sobre o seu destino e Camus havia sido um dos primeiros (o primeiro?) a dar respostas precisas sobre como viver feito estrangeiro num mundo organizado, como se subtrair a suas leis, como erigir um muro de indiferença sem, no entanto, abdicar da consciência. Faz tempo que não vejo ‘O Estrangeiro’, mas creio que Visconti, mesmo sem ter feito o filme que gostaria, fez outro do qual o próprio escritor se sentiria orgulhoso. Dito isso, assumo que não conheço tanto Camus como agora, mais do que nunca, gostaria. Não conhecia sua peça sobre Calígula, como de resto até hoje não assisti ao filme de Tinto Brass, que tanto escândalo provocou há quase 30 anos (em 1979). Meu amigo e editor Dib Carneiro Neto, que traduziu a peça a pedido de Gabriel Villela para a montagem em cartaz no Sesc Pinheiros, me falava sobre as dificuldades de patrocínio. Nenhuma empresa queria associar seu nome a um putanheiro, com o perdão do termo, como o imperador romano que virou, depois do filme, sinônimo de devassidão e perversidade. Sei quanto Gabriel Villela exigiu do Dib, com sua tradução que rejeita o coloquialismo para ser fiel à majestade do texto, respeitando o tratamento cerimonioso de ‘tu’ e ‘vós’. Fui ver ‘Calígula no domingo. Tive um choque. Gabriel Villela impôs ao seu elenco uma rigorosa leitura brechtiana do texto. O espectador pode se emocionar em ‘Calígula’; os atores, não. Como já disse, não conhecia o texto. Talvez seja o fato de eu ainda estar bagunçado, fragilizado pela cirurgia, mas este texto mexeu comigo como nenhum outro que li/vi recentemente. É um texto duro, que exige toda atenção. Hipnotizado pela força das palavras, confesso que chorei de me acabar. Era uma coisa incontrolável. As lágrimas simplesmente jorravam. No final, desitratado, fui falar com o diretor e lhe perguntei – mas não era para ser distanciamento brechtiano? Como chorei tanto? Gabriel Villela, sabiamente, me observou que uma encenação brechtiana não impede a emoção, apenas a trabalha de outro jeito. E ele acrescentou, mineiramente – a gente não se emociona no ‘Dogville’, o exercício brechtiano de Lars Von Trier? Mais do que de ‘Dogville’, me lembrei dos ‘meus’ Loseys – ‘Entrevista com a Morte’, ‘Eva’, ‘Cerimônia Secreta’, ‘Monsieir Klein’. Mesmo assim, não sabia como abordar ‘Calígula’ para deixar minimamente registrada, aqui no blog, a impressão funda que me causou. Como? David Lean forneceu-me a chave, depois de assistir ontem a ‘Passagem para a Índia’. Filme e peça não têm nada a ver e, no entanto, se completaram para mim. A peça é filosófica e, neste sentido, o grande embate talvez seja entre os personagens de Thiago Lacerda (o imperador) e Paschoal da Conceição. Mas o próprio Calígula se autodefine como imperador-artista e eu preferi, ou mexeu mais comigo, ver a montagem pela oposição entre Calígula e o poeta, Scipião. Duas frases me desmontaram – ‘Não há céu’ e ‘Tu, Scipião, és o bem puro e eu, Calígula, sou o mal puro’. A questão do bem e do mal é colocada esteticamente, filosoficamente, sem nenhum maniqueismo ou, mesmo, moralismo, e por isso é tão perturbadora, numa época em que estamos a toda hora sendo confrontados por nossas dúvidas e (in)certezas. Para completar, assisti ontem na TV paga, no fim da tarde, a ‘No Vale das Sombras’ e o filme de Paul Haggis é inteiramente sobre isso. No fundo, a questão do bem e do mal ‘puros’ de ‘Calígula’ me pareceu estranhamente próxima da escuridão da gruta de Marabar e do carma recitado por Godbole em ‘Passagem para a Índia’. David Lean nunca foi um existencialista camusiano. Um cético talvez, ou sim. Mas ambos se completaram no meu inconsciente. Essa necessidade radical de se viver de posse de uma consciência, num mundo que parece rejeitá-la. O absurdo ou o absoluto da indiferença. Na primeira vez em que o dr. Aziz vê Mrs. Moore em ‘Passagem para a Índia’ ele faz uma simbiose entre a lua e ela e no restante do filme Mrs. Moore será referida várias vezes como um fantasma, porque os velhos contemplam com mais facilidade a proximidade da morte. Há uma lua negra em ‘Calígula’. Não resisti e, antes de sar do teatro, pedi para ver e tocar aquela lua, tentando decifrar o artifício. Na minha busca, foi o meu templo indiano encravado na floresta e, como Adela, eu poderia dizer que a perturbação daquela lua é tudo ou nada. Tudo em ‘Calígula’ – o texto, o personagem, a montagem – é teatro. Não é fácil, mas quem disse que as coisas precisam ser fáceis? Juro por Deus que, este ano, na APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte, adoraria poder mudar de categoria e votar no melhor ator de teatro. Wagner Moura é um belo Hamlet (e eu tenho de rever a montagem a que assisti na estréia), mas Thiago é uma força da natureza. Um diretor pode fazer a diferença, mas nem Gabriel Villela conseguiria tanto se o ator não tivesse tanto potencial. Estou, como se diz, pasmo.

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