QUERO SER SELTON MELLO

Trip #139EditorialTrip Girl: Danielli FreitasTrip Girl.com: Juliana NininPáginas Negras: Selton MelloPerfil: Lilian TaulibEspecial: Cada um, cada umReportagem: EcomotionHey! ArthurSe joga na mão de DeusCabra CegoTemplos ModernosGuimarães: Outras PalavrasDuran: PolaroidGoldman: Mundo LivreLuiz Mendes: Mundo LivreNader: Homem de Mídia
Que Malkovich que nada! Em sua casa, no Rio, testemunhamos o milagre da multiplicação dos Seltons: “Adoro trabalhar!

“Minha família era mais tradicional, mineiros, né?” Cenas de um menino prodígio: pose para seu 1º book; com a mãe e o irmão Danton no centro da capital paulista; com o finado Lauro Corona em Corpo a Corpo, sua primeira novela, aos 11 anos; show particular na sala de casa sob o olhar do pequeno Danton

Selton Mello vendeu a alma para o diabo. É fato. Para nós, espectadores de suas minisséries de Ibope obsceno, de seus filmes premiados e de suas peças intelectuais, essa é uma ótima notícia.

Nasceu da soma de Selva com Danton, seus pais mineiros que o batizaram Selton Figueiredo Melo. Só depois, com a alcunha artística, é que ele ganhou um L a mais e foi poupado de seu Figueiredo. Há quem acredite que a simples mexida num nome já é coisa do capeta. Que o diga Louis Cyfer, antológico papel de De Niro, um dos atores preferidos deste Mello de L dobrado.

Parido em Passos, Minas Gerais; criado em São Paulo, São Paulo; cidadão do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. É mineiro, paulista, carioca tudo junto. Criança ainda, o primogênito encasquetou que queria porque queria cantar na televisão. Conseguiu: “Fiz todo o circuito dos shows de calouro, do Raul Gil ao Bozo.” É irmão mais velho de Danton, ator como ele, mas que seguiu o “caminho do bem”. Esse casou, teve filhos, casa, família, esquemão. Selton não. É vaidoso e adora aparecer em público, especialmente em eventos turbinados pelo mulherio como nas duas ocasiões em que comandou a disputada entrega de prêmios do VMB-Brasil da MTV (2004 e 2005). “Nunca me senti usado”, diz ele que está solto como o tição.

Selton recebeu o repórter em seu casarão no Alto da Gávea, bairro agradável do Rio. A casa é rústica, escura, muita madeira, poucos móveis, caverna de solteiro. É uma segunda-feira e ele está de ressaca. “Forte.” Apesar disso, acende um cigarro atrás do outro. Álcool e fumaça, vai vendo…

Selton costuma dizer em entrevistas que quer ser “profeta de sua própria história”, frase bonita de autoria do ex-escritor Raduan Nassar, que ele, Selton, aprendeu quando filmava seu livro Lavoura Arcaica . Aprendeu e não mais esqueceu. Nem da frase nem da experiência da manufatura do filme. Selton gostaria de ser Raduan, ter sua genialidade, complexidade, “ser imortal”. Por essas, foi abandonando, lentamente, sua vida pessoal em troca da profissional. “Tudo consciente”, confessa o rabudo.

Nas paredes de sua casa, pôsteres bem enquadrados delatam as preferências do mineiro. Tarantino, Coppola, Sganzerla, Kubrick, Wenders, Rocha, Trier, entre tantos… Mello não é modesto, se espelha nos grandes. Seu currículo não é modesto. Novelas como Corpo a Corpo, Tropicaliente, A Indomada. Séries do naipe de A Comédia da Vida Privada, Caramuru, Os Maias, Os Aspones. As peças Esperando Godot, Zastrozzi e O Zelador. E filmes como o próprio Lavoura , O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. Quando não está na labuta, porém, este capricorniano é preguiçoso como o cão. O próprio homem-bode, com patas e chifres que adoram uma cama macia.

Selton só quer saber de cinema. Montou uma pequena produtora em sua própria casa com ilha de montagem, monitores, som e o escambau. Dinheiro dos trabalhos mais bem pagos, como as campanhas de publicidade em que estrelou recentemente: Elma Chips, Credicard e Speedy. Um “jovem Midas”, dizem os invejosos da noite carioca. »»

Quase Cristo
Mello não é nada mellow. No momento em que o leitor conhece estas páginas, ele ainda estará em cartaz com o longa O Coronel e o Lobisomem; em turnê nos festivais de cinema com Árido Movie; em finalização estará o Desafinados, onde faz um cineasta no novo filme de Walter Lima Jr.; em montagem estará o Cheiro do Ralo, em que Selton co-produz e é protagonista num dos seus papéis favoritos; e em preparação terá ainda mais dois longas para 2006. E tem mais, o danado. Como diretor, estará produzindo e dirigindo a terceira temporada do seu Tarja Preta (Canal Brasil), vencedor por dois anos consecutivos como Melhor Programa da TV por Assinatura no Prêmio Qualidade Brasil; estará lançando o seu segundo clipe, um trabalho solo do amigo e ídolo Nasi (vocal do Ira!); seu primeiro curta, intitulado Quando o Tempo Cair , estará em fase de montagem; e ainda estará lapidando o roteiro de Feliz Natal, seu primeiro longa-metragem em que assina o texto, a produção, a direção e, claro, o papel principal. E pensar que ainda lhe restam algumas semanas antes que o pé-de-gancho arremate a idade de Cristo.

É fato. Profissionalmente, Selton é um belzebu. Só alguém que menospreza a imprensa de celebridades, que rejeita um contrato fixo com a poderosa Rede Globo, que mora sozinho há uma década e não se sente só e que aceita trabalhar de graça em projetos apaixonantes, poderia fazer tanto, tão bem em tão pouco tempo. Nesses vinte e pouco anos de carreira, o finado Figueiredo que estampa estas páginas conheceu os labirintos mais sombrios da mente, caçoou das divinas comédias, abusou das emoções, enganou honestos, convenceu virgens, roubou, mentiu, matou, chorou, vestiu mais de mil faces e, sobretudo, brincou.

É fato. Selton Mello vendeu a alma para o diabo. O diabo das telas, dos palcos, das lentes. O diabo das artes. Graças a Deus!

Acima à esq., ainda adolescente em foto feita por um amigo; on stage no Hipódromo, época de sua banda Vendeta; e com os pais no último Réveillon no Rio

Você começou a trabalhar já na infância, não? Eu tocava violão e queria cantar na TV. Aí pedi pra minha mãe me levar no calouro infantil. Fiz todo o circuito. Cantei no Dárcio Campos, no Raul Gil, no Bozo, no Barros de Alencar… Isso aos 7, 8 anos

Como foi dali para a TV? Nesses lugares vai olheiro, gente de agência. Não demorou e rolou comercial, logo depois, novela.

Mas era isso o que você queria? É. Eu que queria.

E teus pais, o que achavam desse pequeno querendo ser famoso? Eles viam que eu tinha jeito, me davam apoio. Eles tiveram sempre uma relação muito boa com isso. Por ter começado muito cedo, conhecer os muitos altos e baixos da profissão, vi bastante garoto dançar por causa de pais chatos, mãe de miss que enchia o saco de diretor. Os meus ficavam na deles, nunca me cobraram, até se mudaram para o Rio por minha causa.

Por tua causa? É… Meu pai era bancário e minha mãe, dona de casa. Aos 11 anos pintou um lance de vir pra Globo fazer Corpo a Corpo. A família toda veio pro Rio. Avaliando hoje, acho muito corajoso da parte deles e não sei o que teria acontecido com a minha carreira não fosse por isso. Mudaram toda uma vida, uma estrutura, por causa de um garoto de 11 anos…

E aí você encalhou… É, depois dessa novela fiz mais uma coisa em TV e nunca mais fui chamado.

E seus pais? Cara, eles poderiam entrar nessa tipo: “E aí, viemos pro Rio, né? Pô, então procura fulano? Bate na porta do sicrano”. Nunca. Não é a nossa vibe. Mineiro, sabe? Se rolar, rolou. »»

No palco com Angelo Paes Leme em Zastrozzi , de George Walker; ruivo-brega na Comédia da Vida Privada ;e com o antes ídolo e agora parceiro Nasi

Seus pais são casados ainda? São. Há 40 anos.

E seu irmão? Meu irmão separou recentemente. Foi casado dos 18 aos 30, tem dois filhos. Pensar em casar e filhos é complicado. Às vezes tenho a sensação de que meu irmão fez isso por mim, deu netos aos meus pais e me liberou, saca? [Ri.]

Vai ficar mesmo pra tio? Tenho uns pensamentos meio modernos. Essa coisa do casamento, família Doriana, mulher, filhos, cachorro, quintal, não sei… Mas tenho vontade de ter filhos.

Você já viveu um relacionamento verdadeiro? Já tive isso com a Danielle [Winits, a atriz global] , bem forte, um relacionamento muito legal. Foram três anos.

Você é muito assediado por mulher? Hum [risos] … Não tenho do que reclamar.

Você está com alguém no momento? Eu vivo muito bem sozinho e estou sem namorar já há… puta, uns cinco anos, cara.

“TENHO UNS PENSAMENTOS MEIO MODERNOS. ESSA COISA DO CASAMENTO, FAMÍLIA DORIANA, MULHER, FILHOS, CACHORRO, QUINTAL, NÃO SEI…”

A Danielle foi tua última namorada? Não, depois dela teve outras. Uma eu namorei um ano, outra um ano e meio. Casos, rolos, possíveis namoradas, quase casamentos, isso rola, né?

Há quanto tempo você mora sozinho? Há uns dez anos. Tem gente que não suporta a solidão, precisa ter alguém na cola sempre. Não sou assim.

No que você trabalhou durante o período longe da TV? Durante toda a adolescência fui dublador. Entrava de manhã e saía à noite do estúdio.

Quando foi isso? Chegamos ao Rio em 84 e até 86 ainda fiz alguma coisa de TV. De 86 a 92 não fiz nada de televisão, só dublagem na Herbert Ritchers. Achei que a TV tinha sido coisa de criança e que eu seria dublador pra sempre.

E isso na adolescência masculina, época difícil do homem… Como foi essa parada na sua cabeça? Era bem ruim. É meio pirante para uma criança começar bem e depois cair fora. Me sinto meio sobrevivente de verdade, ter conseguido voltar e reconquistar o meu espaço.

Você engordou nessa época… Engordei pra caramba, ficava nessa angústia. Via numa telenovela personagens de 17 anos feitos por atores mais velhos e não entendia, falava: “Porra, tenho 17 anos, porque esse cara de 27 tá fazendo esse papel?”.

Um adolescente com essa frustração no trabalho, gordo e vivendo no Rio, a terra do corpo sarado, sofre bastante, não? Por isso tive uma adolescência reclusa, fazendo um trabalho em que só importava a voz. Sofri, mas ao mesmo tempo eu trabalhava, ganhava uma grana, aprendi a reconhecer o valor do dinheiro que você conquista. Consegui comprar o primeiro carro, ajudar em casa, pagar o colégio, porque meu pai era bancário e ralava pra caralho ganhando 500 contos por mês. E nesse período da dublagem, hoje vejo, foi um período em que eu vi muito filme, recebi muita informação. Eu dublava o Anjos da Lei , série com aqueles atores bacanas, tipo Johnny Depp… Eu fazia um dos amigos policiais que era japonês, lembra?

Você também dublou o Charlie Brown, do Snoopy. O cara era meio depressivo, não? O cara é totalmente depressivo, sensacional. Dublei ele dois anos.

Brown se dava mal com as meninas. E você, como era nisso? [Risos] Péssimo. Subnutrição total, não agarrava ninguém.

E quando foi que você começou a virar o jogo? Bem depois. Eu perdi a virgindade tarde, aos 19, com uma namorada. Tarde, né?

Hoje seria inconcebível. [Risos] E foi uma bosta. »»

“Pode ser que uma hora eu sinta falta [de se entregar na vida pessoal] , mas hoje não sinto. Através da arte eu me realizo.” Acima, três momentos de realização: em ação no longa Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, com previsão de estréia em 2006 (“Adoro esse personagem, é escroto pra caralho”); dirigindo Jorge “Zé Bonitinho” Loredo em seu primeiro curta, Quando o Tempo Cair; e assinando produção, direção e câmera de seu programa de TV Tarja Preta

Você é um cara completamente apaixonado pelo que faz, se entrega como ator e agora quer se entregar como diretor. É também um cara de 32 anos que nunca morou com uma mulher e nunca teve filhos. Não acha que essa energia do trabalho tira energia da sua vida pessoal? Sempre tirou.

E é consciente? É consciente. Pode ser que uma hora eu sinta falta, mas hoje não sinto, é assim que eu me realizo, que fico feliz, vibro, é assim que viajo. Através da arte eu me realizo.

Mas a sua matéria-prima não vem das emoções vividas na vida pessoal? Mas sou um observador, sempre ligado em tudo e em todos. Tem uma entrevista com o Raduan [autor do livro Lavoura Arcaica ] em que ele começou a falar uma coisa, parou e disse o seguinte: “Eu boto um olho nos livros e um olhão na vida”. Eu não preciso casar para ter essa experiência, eu tô ligadaço no humano, tudo está sendo visto e armazenado e o que vale como ator é o que vale pra diretor também. Eu tô na vida.

O que é felicidade pra você? É isso que eu acabei de te dizer, estar fazendo um trabalho que me complete. Quando eu não estou eu fico perdidaço.

Pra fechar, um breve questionário que chupei por aí… Que trabalho você se arrepende de ter feito? [Selton sempre fecha suas entrevistas no Tarja Preta com este questionário] [Risos] Eu faço essa pergunta e é cruel pra caralho… Muita gente sai da mesma maneira que eu vou sair agora: não dá pra se arrepender de trabalho nenhum porque mesmo nos erros, e às vezes sobretudo nos erros, você aprende. Então não me arrependo.

Imagem de um filme que vem a sua mente agora? Bandido da Luz Vermelha, qualquer cena.

Dorme bem à noite? Durmo mal à noite

Já usou tarja preta? Uso com freqüência.

Para quem prescreveria? Prescreveria não para uma pessoa mais pra todos os governantes do Rio de Janeiro dos últimos anos. Governador, prefeito, tarja preta em toda essa turma.

Resolvi somar algumas outras perguntas ao seu questionário… O que você sonhou esta noite? [Risos] Caralho… Sonhei com os meus cachorros.

Se você fosse passar um ano isolado numa ilha e pudesse levar um livro, um CD, um filme e uma pessoa, o que seria? Que viagem… Cem Anos de Solidão seria o livro; o CD seria Vivendo e Não Aprendendo, do Ira!; o filme, eu levaria o Bandido da Luz Vermelha. A pessoa que é o mais cruel… Levaria o meu irmão.

Se alguém lhe desse uma bela grana para fazer um trabalho sem censura o que faria? Puta!? Bom, seria um filme. Acho que eu ia dirigir um dream team fodão, botava Paulo José com Al Pacino, José Dumond com Benicio Del Toro, Leo Medeiros com Edward Norton. Juntava todos eles numa sala e a gente ficava meses improvisando, e o filme nascia dessa descoberta coletiva [risos].

Por último, tem um grande sonho na vida? O grande sonho é poder continuar, o que não é fácil, a fazer o que eu já venho fazendo – não é pouco. Continuar sendo profeta de minha própria história.

Leia mais sobre Selton na Trip # 139. O ator fala sobre suas manias, pais, seu lado urbano, PT, o trabalho como diretor, a experiência de Lavoura Arcaica , revela que se considera um grande ator.

MAKE/HAIR Ricardo Tavares

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