TERROR EM SÃO PAULO

São Paulo, 15 de maio de 2006

Acuada por ameaças, boatos, tiros e incêndios, a cidade parou. As autoridades não souberam reagir às ameaças. Comércio e indústria tiveram prejuízos imensos. Cidadãos se sentiram à mercê dos bandidos. E o medo ainda não passou

Com Tânia Nogueira e Eduardo Vieira

Terminal Bandeira, 16h00

Um congestionamento de 212 quilômetros, o triplo do normal para as 18 horas, não chega a ser recorde na cidade de São Paulo. Mas esse congestionamento foi diferente. Os motoristas não buzinavam nem se xingavam. Pairava uma espécie de solidariedade dos oprimidos. E as ruas não tinham ônibus. Nas calçadas, milhões de pessoas caminhavam, numa temperatura perto dos 15 graus, caladas, com passos apertados. A segunda-feira 15 de maio entrou para a história da cidade. Foi o dia em que São Paulo teve medo.

Havia razões objetivas para esse medo. Entre a noite da sexta-feira e a madrugada daquela segunda, criminosos a mando do Primeiro Comando da Capital (PCC) tinham iniciado uma caçada às forças da lei. Assassinaram, no fim de semana, 39 agentes, entre policiais militares, policiais civis, guardas municipais e guardas penitenciários, além de quatro cidadãos comuns. Também tinham incendiado 56 ônibus e metralhado oito agências bancárias. Mas a essas razões se juntaram uma onda de boatos, a omissão das autoridades e o despreparo da mídia para lidar com situações de emergência.

A maioria das pessoas saiu de casa cedo, esperando um começo de semana normal. Uma delas foi Andréa Moura Alves, de 29 anos. Andréa saiu de casa às 5h30 e tomou o ônibus fretado que a leva sempre do Parque Residencial Cocaia, na zona sul, até a Avenida Paulista, onde trabalha como secretária da presidência de uma imobiliária. Ouvira notícias sobre a série de atentados do PCC por toda a cidade. Mas seu fretado chegou na hora, às 5h40. Tudo parecia tranqüilo. No correr do dia, Andréa e os outros 20 milhões de habitantes da Grande São Paulo perceberiam que a cidade não estava tranqüila.

Àquela altura, os ataques do PCC já amainavam. E os policiais reagiam. Mas cerca de 60% das empresas de transporte se recusaram a mandar sua frota para a rua. Motoristas e cobradores tampouco queriam trabalhar. O trânsito já começava a dar sinais de problema. Até o fim do dia, 5 milhões de pessoas ficariam sem condução.

E começava a onda de boatos. De boca em boca, pela internet ou mesmo pelo rádio e pela televisão. “Uma funcionária do escritório de contabilidade da minha mãe tem um sobrinho que está preso e é do PCC”, dizia uma das mensagens que correram a internet. “Ele acabou de ligar de dentro da cadeia para avisá-la para não freqüentar lugares de movimento, como shoppings e supermercados. Não se sabe o que farão, mas deve ser coisa grande. Avise quem puder”, continuava o e-mail. “Comecei a ficar com medo”, diz Andréa. “Mas só tive noção do tamanho da coisa na hora do almoço, quando desci para a Avenida Paulista. Vi um monte de lojas fechando, filas nos pontos de ônibus, gente tentando ir embora.”

Os boatos amplificavam o temor. Falavam de supostos ataques a shopping centers, bombas em estações de metrô, atentados contra escolas e hospitais. “Circulou o boato de que a faculdade Uninove tinha sido metralhada e de que o Mackenzie seria invadido”, diz Priscilla Junqueira, de 23 anos, aluna de Psicologia do Mackenzie. “Fui trabalhar e não voltei para a faculdade.” No site do jornal Correio Popular, de Campinas, um comentário anônimo falava de uma tentativa de ataque a uma loja na Rua 13 de Maio. “Mataram o gerente. Não sei se é verdade, mas não dá para arriscar e ficar esperando pela confirmação da notícia. Vou fechar as portas e decidir se amanhã abro a loja.”

À tarde, 12 shoppings e metade do comércio de rua da capital estavam fechados. As escolas suspenderam aulas, espetáculos foram cancelados, a indústria parou. A indústria farmacêutica Boehringer faria um jantar em comemoração aos 50 anos da empresa no Brasil. Deixaram 350 convidados na mão. A Nortel, empresa de telecomunicações, traria ao Brasil sua presidente para a América Latina e o Caribe, Martha Bejar, que tentaria fechar negócios com clientes. A visita foi cancelada e ela não deve voltar mais neste ano. O prejuízo do comércio, considerando um dia de vendas médio, foi de R$ 50 milhões. Na indústria, considerando a média de uma hora de paralisação, o prejuízo passa dos R$ 100 milhões.

#Q:São Paulo, 15 de maio de 2006:#

Metrô Sé
As poucas opções de transporte
que ainda funcionavam
ficaram completamente lotadas

Na ânsia de informar a população, a mídia também contribuiu para o pânico. Uma repórter da TV Record chegou a dizer que haveria toque de recolher na cidade às 20 horas. Segundo a assessoria de comunicação da emissora, a informação dada em um plantão ao vivo baseou-se em fontes não-oficiais da polícia de São Paulo e foi corrigida três minutos e meio ä depois, quando a Secretaria de Segurança Pública fez o desmentido oficial.

“Não se pode negar a gravidade dos fatos que antecederam o pânico”, diz Kathie Njaine, do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde da Fiocruz, autora das pesquisas A Produção da (Des)informação sobre Violência e A Imagem do Policial na Mídia Escrita. “Não dá para culpar só a mídia pelo pânico. Mas é claro que ela tem uma participação forte na sensação de medo. Ela leva os incidentes para dentro dos lares.” Segundo Kathie, um dos fatores que assustam a população é o costume das emissoras de TV de, durante a cobertura de grandes tragédias, repetir várias vezes as imagens de um mesmo evento. “Isso é da natureza do meio”, afirma. “Mas há canais sensacionalistas que criam um jogo semântico de palavras ameaçadoras que não informam, orientam mal o público e criam o pânico”.

“A funcionária da minha mãe tem um sobrinho preso. Ele falou para não ir ao shopping”
e-mail que circulou na tarde da segunda

Nessas horas é necessária a presença de uma autoridade para desfazer a confusão. “A credibilidade da informação é muito importante”, diz Valter Zanela Tani, diretor de projetos do Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastre da Universidade Federal de Santa Catarina, onde é dado um curso de pós-graduação em defesa civil. “Por isso, quando houve furacão no litoral sul de Santa Catarina, quem foi à TV tranqüilizar a população foi o governador.” Mas no auge da crise o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, se omitiu. Disse que não havia necessidade de fazer uma declaração pública “porque tudo estava sob controle”.

Não estava. Às 17h30, no pico do trânsito, os marronzinhos, agentes que ajudam a controlar o tráfego, foram mandados para casa porque também para eles não haveria condução. A ausência de autoridade fez com que se perdesse, pelo menos temporariamente, o que em psicanálise se chama de “confiança básica no mundo”, aquela fé que nos dá segurança de ir e vir. Para Andréa Alves, a jornada de volta para casa demorou seis horas, incluindo caronas e um longo trecho a pé. “Achei que nunca chegaria, que nunca mais veria meu filho”, diz Andréa, que tem um filho de 1 ano e 9 meses.

Mesmo depois que as forças de segurança retomaram o controle da cidade, os boatos persistiram. Na quarta-feira, correu a notícia de que tinham matado a mãe – ou, segundo outras versões, o irmão, ou o cunhado – de Marcola, o líder do PCC. Isso faria os atentados voltar. Na Rede TV, um repórter afirmava: “Tensão em São Paulo. O PCC avisa que o próximo alvo são os moradores do Morumbi, um dos bairros mais nobres de São Paulo.” Era boato. Parece que São Paulo não vai se livrar tão cedo da sensação de insegurança.

Como agir
O que fazer em caso de ameaça na cidade

Fotos: João Wainer/Folha Imagem e JB Neto/Diário SP

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