Antes e depois de Beto

Há 40 anos, estreava na TV Tupi a primeira novela a apostar no anti-herói, [br]divisor de águas do gênero

Alline Dauroiz – O Estado de S.Paulo


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– Houve um tempo em que novela no Brasil era sinônimo de dramalhão, interpretações carregadas e histórias do tempo do Império, importadas da Argentina, Cuba e México. Mas, há exatos 40 anos, a era dos barões e condessas foi sacudida por um bicão muito do simpático, que encheu o horário nobre de malandragem. Nascia Beto Rockfeller, novela contemporânea estrelada por Luis Gustavo na TV Tupi, que criou o primeiro anti-herói da TV brasileira e aproximou o público dos personagens, sempre muito possíveis.

“O sistema telenovela já estava começando a se necrosar. E é obrigação do artista enviar um ruído”, teoriza Lima Duarte, ator convidado por Cassiano Gabus Mendes, diretor artístico da emissora, para dirigir a novidade.

Nada foi de caso pensado. O personagem que morava na Rua Teodoro Sampaio, trabalhava em loja de sapatos e, cheio de trambiques, sonhava em pertencer ao rico mundo da Rua Augusta surgiu na boate paulistana Dobrão, que pertencia a Gabus Mendes.

Uma menina da alta sociedade comemorava lá seu aniversário, quando, de repente, entra um “camarada” com roupa descolada, pega flores do balcão, dá para a aniversariante – que era lindíssima -, tira-a para dançar e, no final, acaba levando a moça embora.

“Perguntei para um amigo quem era o cara. Acredita que ninguém conhecia? Falei para o Cassiano: ?Era um bicão!? e ele: ?Bicão não, ele é um puta personagem”, conta Luis Gustavo.

Pronto. Estava criado o tipo que seguraria uma novela por 13 meses, folhetim tão longo que autor, diretor e até o próprio Luis Gustavo não agüentaram levar até o final – Lima Duarte foi substituído por Walter Avancini, e Luis Gustavo saiu e só voltou para os últimos capítulos.

Com a idéia do personagem na cabeça, Gabus Mendes foi atrás do autor. Bráulio Pedroso, ex-editor do caderno de literatura do Estadão, estava na pior: havia sofrido um acidente, estava sem dinheiro e morando na garagem de Ruth Escobar. Logo aceitou o desafio.

FORMA E CONTEÚDO

Além de linguagem coloquial e interpretação despojada, Beto Rockfeller foi uma escola para o improviso. Incentivados pela direção de Lima, Luis Gustavo e Plínio Marcos (o Vitório, melhor amigo de Beto), criavam gírias e inventavam diálogos inteiros na hora de gravar.

“O Plínio tinha todo um jeitão para dar veracidade. Ele pegava o texto não decorado e dizia: ?Porra Beto (com sotaque italiano)?. E o Lima: ?Não pode falar porra!?. E ele: ?Sou mecânico e tu não quer que eu fale porra, porra!?. E acabou indo o “porra” pro ar (risos)”, conta Bete Mendes, que virou musa da juventude com sua Renata, a última namoradinha de Beto.

Houve inovação também na forma de gravar, com externas. “Fizemos 80% das cenas em locais verdadeiros de São Paulo. Antes, tudo era gravado em estúdio”, diz Luis Gustavo.

Em plena ditadura militar, a atriz Ana Rosa, que vivia Cida, a namorada pobre de Beto, participou de outro momento ousado na trama. “Nós nos beijamos, a câmera desceu para nossos pés e meu vestido caiu no chão, insinuando que íamos transar. A censura quase impediu de ir ao ar.”

Quem assistiu também não esquece das músicas, pops para a época em que apenas as clássicas sinfonias ganhavam as trilhas das tramas. Em 40 anos, muitos tentaram imitar as inovações testadas na novela. Mas a fôrma daquele Beto Rockfeller parece ter se perdido no tempo.

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