Do outro lado das câmeras

Atores consagrados, Malu Mader e Matheus
Nachtergaele investem agora numa nova
carreira: a de diretores de cinema

Sofia Cerqueira

Fernando Lemos
Matheus e Malu: le edirigiu um drma; ela, um documentário.
Os dois estréiam no Festival do Rio

Atenção, rodando: a câmera acompanha os fiéis em uma estranha festa religiosa numa longínqua cidade no alto do Rio Negro, no Amazonas. Corta. O set agora é uma favela do Rio, onde jovens munidos de violinos, contrabaixos e violoncelos tentam driblar o destino e buscar novos horizontes. Nos dois filmes, dois experientes atores, ela estrela de TV e ele um dos mais cultuados profissionais de sua geração, dominam as cenas. Desta vez, do outro lado das câmeras. Malu Mader, 42 anos, 26 de carreira, e Matheus Nachtergaele, 39 anos, dezenove atuando, estão estreando em um novo papel: o de diretor de cinema. A expectativa é grande. Seus respectivos longas-metragens serão vistos pela primeira vez na cidade durante o Festival do Rio, que vai até 8 de outubro. A fita dirigida por Matheus, A Festa da Menina Morta, que se passa em uma localidade ribeirinha a 400 quilômetros de Manaus, foi exibida no Festival de Cannes e em agosto abocanhou seis Kikitos no Festival de Gramado, entre eles o de melhor filme e o de melhor ator, para o protagonista Daniel de Oliveira. O documentário Contratempo, de Malu em parceria com a diretora Mini Kerti, sobre integrantes do projeto social Villa-Lobinhos, ainda é inédito. “Durante as filmagens, eu ficava numa plenitude que desde que comecei a estudar teatro no Tablado não experimentava”, exalta a atriz. “A gente deixa de ser um instrumento como ator e passa a ser o coração e a cabeça do filme”, descreve Matheus.

De intérpretes consagrados a cineastas principiantes. A mudança de rumo não aconteceu de uma hora para outra. “Tinha vontade de dirigir há muito tempo, mas de uns dez anos para cá isso se tornou claro”, diz Malu. “Sempre fui um ator que gosta de colaborar com o diretor”, explica Matheus. “À frente de um filme você tem a chance de expor sua visão de mundo e também corre outros riscos.” A idéia de Malu, que já atuou em doze filmes e está em cartaz em Casa da Mãe Joana, era fazer ficção. “É a minha paixão, o terreno da liberdade total.” Acabou seduzida, em 2001, por um projeto que ensina música erudita a jovens carentes. A princípio era só madrinha do Villa-Lobinhos. “Eu me envolvi de tal forma que queria saber mais sobre os meninos, conviver com eles.” Durante três meses em 2006, quando o documentário foi gravado, saía às 6 da manhã de casa, em Ipanema, e só voltava à noite. Rodou o Rio a bordo de uma van e se embrenhou em favelas como Dona Marta, em Botafogo, Grota do Surucucu, em Niterói, e Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, para registrar aquela realidade. “Chegava em casa numa excitação tamanha que parecia criança. Queria contar tudo para o Tony. Tinha a sensação de ter vivido várias vidas num dia”, lembra Malu, que em 2009 completa vinte anos de união com o músico Tony Bellotto, dos Titãs, algo raro no meio artístico.

Divulgação

A FESTA DA MENINA MORTA, de Matheus Nachtergaele
Rodada no Amazonas, a produção de 1,7 milhão de reais conta a história de Santinho (Daniel de Oliveira), venerado após achar os trapos de uma menina desaparecida

Extenuante, absorvente, sofrido, mas “delicioso”, como define Matheus. A primeira incursão na direção encantou o ator, que atuou em 24 filmes. Entre eles, os premiados Central do Brasil e Cidade de Deus e os cults Amarelo Manga e Baixio das Bestas. Durante as filmagens de O Auto da Compadecida, na pele de João Grilo, em 1999, topou com a idéia de seu longa. Enquanto gravava em Cabaceiras, no sertão paraibano, foi a uma festa religiosa, animada por um forró, onde se venerava o vestido de uma menina morta. “Aquilo me perturbou”, recorda. “É comovente e patético como a religiosidade serve de bálsamo para as dores.” Em 2001, participando da produção austríaca Eclipse, na Amazônia, encontrou a locação: Barcelos, o segundo maior município do país (122 476 quilômetros quadrados), com apenas 24 000 habitantes. Aquele pedaço de terra isolado era entranhado de crenças, com manifestações de catolicismo, candomblé e pajelanças indígenas. A fita, que aborda o sincretismo religioso, foi rodada em seis semanas, em 2007. Deu trabalho. Só se chega ali de balsa ou num bimotor. “Com medo, parte da equipe preferiu ir pelo rio”, conta.

A direção entrou na vida dos dois em momentos distintos. Matheus, que nasceu em São Paulo e vive no Rio, filho de um engenheiro belga e uma poetisa paulista, vem emendando um filme no outro. Em 1997, entrou na TV. Fez oito minisséries e duas novelas. Acabou de gravar a série Ó Paí, Ó e está escalado para outra, dirigida por Guel Arraes. “Nossa, tenho feito tanta coisa”, surpreende-se. A carioca Malu foi descoberta no curso de teatro Tablado, surgiu aos 16 anos na novela Eu Prometo, conheceu o estrelato em Anos Dourados e protagonizou tramas como O Dono do Mundo. Mas, nos últimos anos, vivia um momento de questionamento profissional. “Estava com medo de não ter mais vontade. Não só de fazer novela, mas de ser atriz”, revela. “Tive problemas de saúde sérios”, acrescenta, referindo-se à convulsão sofrida em Florianópolis, em 2005, seguida de uma cirurgia para retirar um cisto na cabeça. “Passei por um período triste, reclusa, só querendo ficar em casa.” A inércia foi quebrada pela vontade de dirigir. Em 2007, voltou à TV na novela Eterna Magia, como a pianista Eva. “Tenho uma frustração enorme em não saber tocar instrumentos”, diz. “A possibilidade de fazer uma artista virtuosa acendeu a chama de novo.”

Júlio Callado/Divulgação
CONTRATEMPO, de Malu Mader e Mini Kerti
O documentário, que custou 370 000 reais, mostra jovens de favelas do Rio que encontraram num projeto social ligado
à música a chance de mudar seu destino

Malu se realizou ao levar para as telas jovens favelados do Rio. Matheus viajou quilômetros para registrar sua história. Em comum, têm a preocupação social. Entre acordes de violinos e clarinetes, a fita de Malu mostra um rapaz que perdeu a mãe, vítima de overdose, um ex-morador de rua, outro que foi estudar fora e o que acabou assassinado. Ela dividiu a direção com Mini Kerti, sócia da Conspiração Filmes, com experiência em fitas de publicidade, videoclipes e documentários. “Eu tinha um conhecimento mais técnico e ela uma preocupação maior com o personagem, talvez por ser atriz”, analisa Mini. O longa, produzido pela Riofilme, com custo de 370.000 reais, chega aos cinemas até o início de 2009. No Festival do Rio compete na mostra de documentários. “Está tudo em família”, brinca Malu, que teve a enteada Nina como assistente de direção. Participam ainda do festival o documentário Titãs – A Vida Até Parece uma Festa, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves, e o curta Se Não Fosse Onofre, dirigido pela sobrinha Erika Mader. Nele, Malu atua junto com o filho caçula, Antonio, de 11 anos. Ela também é mãe de João, de 13.

Orçado em 1,7 milhão de reais, o documentário de Matheus foi produzido pela Bananeira Filmes – a mesma da fita de estréia de Selton Mello como diretor (veja o quadro). Só deve entrar em circuito no fim do ano. Sua exibição está confirmada no Chicago International Film Festival e na Mostra de Vancouver, no Canadá. A estréia foi em Cannes. Comentou-se que alguns espectadores saíram da sala após uma cena de incesto. “Isso não aconteceu”, desmente, mas reconhece que causa impacto. “Talvez mais incômodo do que a cena seja o fato de eles não serem condenados. É um filme forte, que deixa resíduos.” A ousadia na tela contrasta com a timidez do pequeno Matheus, 1,63 metro. “O assédio do público me aflige”, confessa. “Há anos não piso num shopping.” Malu, sempre exuberante em seu 1,70 metro, se diz mais aberta. “Por mais paradoxal que pareça, por conta da minha imagem de aversão à abordagem de paparazzi, gosto do contato com o público.”

Malu é família. Matheus, boêmio, embora esteja numa fase calma e adorando ir à cidade mineira de Tiradentes, onde tem casa. A atriz, que aos 18 anos começou a fazer letras na PUC e planejava cursar sociologia, diz ter reencontrado a vocação social no documentário. Matheus estudou artes plásticas na Faap, em São Paulo, e sonhava ser biólogo. Não por acaso, insetos, tartarugas e girinos povoam seu filme. Se depender dos dois, a experiência atrás das câmeras só começou. Ela dirigiu um curta com Thiago Lacerda, exibido no canal a cabo GNT, inscreveu outro numa seleção da Riofilme e planeja fazer um longa de ficção. Não revela o tema. Matheus pensa adaptar para o cinema a peça Woyzeck, do alemão Georg Büchner, e fazer um filme abordando a insanidade mental. E a carreira de ator? “Acho que isso vai começar a se alternar”, acredita Matheus. “Sou atriz, mas tudo o que penso é no formato de cinema”, emenda Malu. A câmera gira.

O cinema de Malu…

Fernando Lemos
Parcerias: Mini Kerti (à esq.) dividiu a direção com Malu; Daniel de Oliveira estrela
o filme de Matheus

Diretor brasileiro: Fernando Meirelles

Diretor estrangeiro: Martin Scorsese. Sinto como se ele fosse da minha família

Filme brasileiro: Cidade de Deus, de Fernando Meirelles

Filme estrangeiro: O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola

O primeiro filme que tem lembrança de ter visto: Algum de Fred Astaire. Lembro de ter saído dançando quando acabou

O filme que despertou a vontade de dirigir: Bons Companheiros, de Scorsese, e E Sua Mãe Também, de Alfonso Cuarón

…e o cinema de Matheus

Diretor brasileiro: Cláudio Assis

Diretor estrangeiro: Ingmar Bergman

Filme brasileiro: Iracema, uma Transa Amazônica, de Jorge Bodansky e Orlando Senna

Filme estrangeiro: A Balada de Narayama, de Shohei Imamura

O primeiro filme que tem lembrança de ter visto: acho que foi A Paixão de Cristo, que vi na TV num dia de Natal

O filme que despertou a vontade de dirigir: La Luna, de Bernardo Bertolucci, e The Touch, de Bergman

Prêmio logo na estréia

Letícia Pimenta

Paula Huven/Divulgação
Darlene Glória em Feliz Natal: “A alma do filme”

Um dos mais bem-sucedidos atores de sua geração, Selton Mello, 35 anos, poderia se contentar em comemorar os 2 milhões de espectadores que o viram em Meu Nome Não É Johnny, a maior bilheteria do cinema brasileiro em 2008, e esperar pelos próximos roteiros. Mas o desejo de contar uma história também o levou ao outro lado da câmera. Seu filme de estréia, Feliz Natal, nem entrou no circuito e já ganhou o prêmio de melhor direção do 1º Festival Paulínia de Cinema, em São Paulo. “Foi um privilégio. O júri era qualificado, com gente que respeito muito (entre os jurados estavam a cineasta Tata Amaral e o crítico Leon Cakoff)”, diz o ator, recém-chegado de Londres, onde passou um mês filmando a história do eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, morto por engano pela polícia londrina em 2005.

Aline Arruda/Divulgação
Selton: primeiro troféu como diretor


O ponto de partida de Feliz Natal foi o aniversário do pai de Selton, em 25 de dezembro, e o dele próprio, cinco dias depois. Seus Natais sempre foram muito festejados. Mas, ao notar que para muitos a data é sinônimo de melancolia, ele encontrou o mote para sua história. O filme narra a volta de Caio (Leonardo Medeiros) à cidade onde vive sua problemática família, no dia de Natal, para um acerto de contas com o passado. Estão no elenco Paulo Guarnieri, há tempos sem atuar, o humorista Lúcio Mauro, em um raro papel dramático, e Darlene Glória, como uma viciada em remédios. Depois de conhecer a atriz durante uma entrevista para o finado programa Tarja Preta, no Canal Brasil, Selton criou para ela um papel que não existia no roteiro original. “Ela é a alma do filme. Este é o ano de Darlene Glória”, diz o ator. Ou melhor: diretor.

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