Acordo ortográfico é para promover dicionários

Link permanente Abuso ortográfico

por Daniel Piza,

Foi machadianamente irônico ver que ontem, no centenário de morte de Machado de Assis, o presidente Lula, cercado dos fardados da ABL, assinou o tal acordo ortográfico. Podem-se até discutir os méritos das mudanças. O trema já tinha sido abolido por muitos, o acento em palavras como “vôo” não tem função (lembro que Monteiro Lobato propunha a extinção de muitos acentos, exceto em palavras como “é”), etc. Mas a questão não é essa. O que está por trás é o desejo de alguns editores de explorar mercados em outros países lusófonos, e os primeiros livros – didáticos – já estão aí para garantir os lucros. Quem diz que esse acordo vai facilitar o ensino do idioma e aproximar os povos é ingênuo ou é político. Veja as novas regras do hífen: se as velhas já eram confusas, agora tudo ficou mais difícil ainda. Eliminar consoantes mudas também é miudeza; não por acaso isso não existe entre ingleses e americanos, que admitem uso de “theater” e “theatre”. E você já leu um livro do bom Mia Couto? Ao final é necessário um glossário com os termos moçambicanos que desconhecemos. Detalhes de acentuação vão ajudar? Mia Couto, por sinal, adora a literatura brasileira, foi influenciado por Jorge Amado e Guimarães Rosa e os leu sem uniformização nenhuma. Esse acordo é para promover dicionários, não o idioma.

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