Os latinos obrigatórios do Festival do Rio 2008

Trailer do filme “La Leonera”, com Elli Medeiros, Martina Gusman e Rodrigo Santoro. Direção de Pablo Trapero.

RIO – É inegável a contribuição das produções latinas para a sétima arte. A cada ano novos filmes chegam ao circuito com o selo de qualidade de terem concorrido nos festivais mais importantes do mundo. Podemos citar “Batalha do céu” (2005), de Carlos Reygadas, que recebeu o prêmio de melhor filme latino do ano pela critica especializada internacional (FIPRESCI), além de ter disputado a Palma de Ouro, em Cannes.

A Première Latina, no Festival do Rio, é uma ótima oportunidade para o público tomar conhecimento em primeira mão das novas produções de nossos co-irmãos sul-americanos. Esse ano, vinte filmes estarão na mostra. Os destaques são “Ninho vazio”, de Daniel Burman, “A mulher sem cabeça”, de Lucrécia Martel, e “La Leonera”, de Pablo Trapero, com o brasileiro Rodrigo Santoro no elenco. Todos os três cineastas fazem parte da nova onda do cinema argentino.

Cena de 'Ninho vazio'/ Divulgação

“Ninho vazio” (“El nido vacío”, 2008, veja o trailer) é o sexto filme do cineasta e roteirista Daniel Burman. Podemos citar os recentes “As leis de família” e “O Abraço partido”, produções bem recebidas pelo público brasileiro e pela crítica. Burman não é um aficionado pela técnica cinematográfica. Sua câmera procura captar a força do roteiro. Ele utiliza as relações familiares para traçar um paralelo com arte. Para ele a arte não imita a vida. Ela serve, às vezes, para aliviar os nossos maiores temores.

Esse é a mensagem por trás do roteiro escrito por Burman em “Ninho vazio”. A história é sobre Leonardo, um escritor renomado. Ele e sua esposa Martha deparam-se com a situação de aprender conviver juntos novamente, após os filhos saírem de casa. Leonardo está cansado das obrigações sociais e opta pela introversão. Ele sente medo das transformações em seu entorno e vê uma crise de meia-idade se aproximar. Para descobrir como se acomodar à nova configuração de sua vida e salvar o casamento, Leonardo se entrega à imaginação e embarca numa longa viagem interior. Ficção e realidade se confundem através dos personagens que são o produto da imaginação de Leonardo. No elenco tem a presença da ótima Cecília Roth no papel de Martha.

Diferente de Burman, cineasta argentina Lucrécia Martel é uma apaixonada pela linguagem cinematográfica. A força de seus filmes não está nos diálogos e sim nas imagens. Percebe-se essa preocupação em “O pântano” (2001) e “Menina santa” (2004). Seu novo longa, “A mulher sem cabeça” (“La mujer sin cabeza”, 2008, veja o trailer ), é ainda mais onírico que seus trabalhos anteriores. A trama é baseada em uma experiência sofrida por Martel na adolescência.

Rodrigo Santoro em 'La leonera'/ Divulgação

Após atropelar algo, Veronica, nos dias que seguem, se sente distante, estrangeira às pessoas e às coisas. Os eventos de sua vida social ocorrem, e Veronica simplesmente se deixa levar. Até que, uma noite, ela revela a seu marido que matou alguém. Os dois retornam à estrada e encontram apenas um cachorro morto. Eles procuram na polícia, mas não há qualquer notificação. A vida parece entrar de novo nos eixos, porém a descoberta de um cadáver volta a perturbar a todos.

Martel realiza uma ruptura com a realidade com a intenção de criar uma parábola sobre a classe social argentina. O filme requer atenção redobrada do público para entender as mensagens implícitas da narrativa. A proposta é reflexiva e Martel acredita que arte é o melhor instrumento para que o individuo possa encarar fatos desagradáveis sobre sua a existência e sobre o mundo. O filme competiu no Festival de Cannes 2008.

Completando os destaques, tem “La leonera” (veja o trailer), o quinto filme do diretor Pablo Trapero. O título é uma expressão que mistura leoa (progenitora protetora) com uma prisão especial para jovens mães. Esse conceito fica mais claro através da personagem Julia, 26 anos e grávida que acorda suja de sangue e descobre em seu apartamento o corpo do pai de seu filho. Incapaz de se lembrar do que aconteceu, ela é acusada de assassinato e enviada a uma prisão especial. Julia dá a luz a Tomás atrás das grades, mas sabe que só poderá ficar com ele até que o menino complete quatro anos de idade. Apesar de estarem presos, os dois vivem felizes, porém um dia a mãe de Julia reaparece querendo pegar o neto.

Cena de 'La leonera'/ Divulgação

O longa tem os temas preferidos de Trapero. Por meio de personagens que levam vidas corriqueiras, o diretor realiza uma critica a sociedade moderna. Trapero investe no drama através da ligação entre mãe e filho. Ele não glorifica essa relação. Funciona como um observador. Esse conceito explora o imaginário envolvendo as películas de prisão. Muito do crédito se deve a interpretação arrebatadora de Martina Gusman no papel de Julia. Rodrigo Santoro também faz uma participação sólida como amante de Julia. O filme participou da competição em Cannes 2008 e foi ovacionado ao final da sessão.

“La Leonera”: SÁB, 4: Odeon: 19h45 [OD050]; SEG, 6: Estação Ipanema 2: 17h30 [IP218] e 22h [IP220]; TER, 7: Est Gávea 1: 15h30 [GV157] e 19h50 [GV159]; QUA, 8: Cine Santa: 21h.

“A mulher sem cabeça”: QUA, 1: Est. Vivo Gávea 4: 13h40 [GV426] e 20h30 [GV429]; SÁB, 4: Espaço 2: 17h [EC251] e 21h30 [EC253]; DOM, 5: Cine Santa: 19h.

“Ninho vazio”: DOM, 5: Espaço 2: 16h45 [EC257] e 21h15 [EC259]; TER, 7: Est. Vivo Gávea 4: 15h50 [GV457] e 22h20 [GV460].

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