TIRANIAS DA MODERNIDADE: CENAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER EM EÇA DE QUEIRÓS


Izabel Margato
PUC-Rio

A modernidade que este texto põe em discussão é a modernidade portuguesa da segunda metade do século XIX, mais precisamente, a modernidade que vai ser vivida, assumida e encenada pelos intelectuais portugueses da Geração de 70.

Nos anos 60, a sociedade portuguesa, embora com algumas décadas de defasagem, vive o início de um processo de modernização comandado pelo Engenheiro Fontes Pereira de Melo que, por 35 anos, dominará a cena política portuguesa. Essa transformação pode ser vista como a substituição de uma retórica romântica por um “realismo” apoiado em números e raciocínios lógicos, desse engenheiro de argumentação precisa e moderna que logo será visto como o homem conhecedor, prático e frio da idade industrial, dos caminhos de ferro, do telégrafo…[2]

O capitalismo “fontista” é, então, uma espécie de solo novo para a instalação de um cenário “moderno” em Portugal. O desenvolvimento do comércio bancário, a especulação mais organizada e as primeiras manifestações industriais já trazem a marca de um signo vital à época: a velocidade.[3] Caminhos de ferro, telégrafo e novas formas de produção ao mesmo tempo que alteram a antiga concepção de tempo e espaço fazem frente ao angustiante sentimento de inferioridade, dolorosamente expresso na carta de D. Pedro V, em 1855: “De momento, Portugal não podia apresentar nas exposições internacionais senão produtos naturais”.[4] O jovem rei romântico morre em 1861, antes, portanto, de os caminhos de ferro atingirem a fronteira em direção à Europa (1863) e chegarem até Madri em 1866.

A grande Exposição Internacional, realizada no Porto em 1865, vai coroar o estilo prático e empreendedor da política “fontista” na chamada “Sociedade de Bacharéis”.[5] Entretanto, a grande “reforma” modernizadora do antigo Portugal está sendo gestada na não menos antiga Universidade de Coimbra.
Como diz José-Augusto França, “assistir-se-á em breve a uma viragem filosófica e cultural e até mental que definirá uma nova geração erguida contra o Ultra-romantismo”.[6]

Os jovens estudantes de Coimbra, que depois serão os principais representantes da Geração de 70, receberão a modernidade dos grandes centros europeus pelos caminhos de ferro – esse veículo cultural, verdadeiramente responsável pela circulação de uma nova visão do mundo, que, gradativamente, vai rompendo fronteiras e penetrando nos diferentes domínios da vida. No entanto, o que chegava “de trem” não pode ser reduzido à categoria de “últimas novidades da Europa”, pois era mais do que isso. Era um outro modelo de modernidade, marcado por transformações políticas e pela Revolução Industrial que definiam uma nova sensibilidade ou visão de mundo.[7] Esses privilegiados jovens de Coimbra, se não podiam dizer que colhiam a “cultura” da modernidade “em primeira mão”, podiam, no entanto, orgulhar-se por serem os primeiros leitores a receber “aos pacotes” o novo espírito moderno gerado nos grandes centros de uma Europa Ocidental, agora mais próxima.

Mas se ser moderno é perceber a emergência dessa outra ordem de valores que se vão impondo cada vez mais até se tornarem hegemônicos; ser moderno é também perceber agudamente o descompasso existente entre os países produtores dessa nova realidade e os situados numa margem onde a modernidade só existirá concretamente nas manifestações da consciência de uma elite intelectual. Para Renato Ortiz, neste caso, “um hiato se consubstancia entre ser moderno e existir enquanto tradição”.[8] Esta segunda forma de ser moderno é dolorosamente vivida pelos Senhores da Geração de 70 portuguesa, pois, para Eduardo Lourenço,

Nunca geração portuguesa se sentira tão infeliz – tão funda, sincera e equivocamente infeliz – por descobrir que pertencia a um povo decadente, marginalizado ou automarginalizado na História e recebendo passivamente do movimento geral do que chamam extasiados A Civilização, não só máquinas, artefatos, modas, mas sobretudo, ideias, acessíveis como máquinas.[9]

É essa compreensão tensa da modernidade que me interessa. Foi pensando nela que construí a primeira parte do título desta comunicação: Tiranias da modernidade.

Dentro desse raciocínio, a ambigüidade vivida por esta geração vai muito além do sentimento contraditório expresso por pensadores ou artistas da época em relação à sociedade moderna. Para os homens da Geração de 70 portuguesa, a modernidade não pode ser vista apenas a partir de sua dicotomia: “ausência e vazio de valores” e “desconcertante abundância de possibilidades”.[10] Para eles, um outro dado assume maior relevo: a impossibilidade de pertencerem plenamente a essa nova realidade emergente, hegemônica e, ao mesmo tempo, excludente.

Esse sentimento de não pertencimento ou, como diz Eduardo Lourenço, essa “fragilidade ôntica” determinará o ritmo de um programa cultural proposto pelos homens dessa Geração: “Estudar todas as idéias e todas as correntes do século”; “investigar como a sociedade é e como ela deve ser” para “ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada” e “estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa”.[11] Nesse sentido, para ser moderno é preciso “fazer parte de”, “ser igual a”. Para ser moderno, é também necessário ter consciência e criar consciências.

A ação crítica e pedagógica dos homens dessa geração vai desencadear um movimento obsessivo de interpelação à sociedade portuguesa marcada, fundamentalmente, por uma atitude de “acusação regeneradora”. Eça de Queirós pertence a esse grupo e, sem dúvida, abraçou o projeto revolucionário de modernização do seu país.

Com a conferência O Realismo como nova expressão da Arte, Eça lança o seu “Brado anti-romântico feito em nome da justiça e do progresso”. Com As Farpas, o “brado regenerador” fica ampliado, pois Eça e Ramalho

[…] agarravam em tudo, nas cuias tortas, nos espartilhos suados, nos crânios ocos, na Carta Constitucional, nas nizas do rei, na quebra de um Banco, nos sete pés e três polegadas do condestável, numa carta de namoro, nas condecorações prodigalizadas a barbeiros e traficantes, nos sábios cretinos, em toda a ordem de pessoa ou de coisa, desde o vadio sem guarida, até ao ministro sem crédito, e vinham à rua sacudir o objecto ou o ser em questão, na ponta de uma tenaz ou de uma pinça.[12]

Essa publicação, em forma de crônica, de nome tão sugestivo já traz a marca, ou melhor, o tom particular da ação projetada por Eça de Queirós para modernizar a sociedade portuguesa: o riso, a troça, a farsa, a farpa certeira. Dito de outra forma, as pedagógicas Cenas de Escárnio e Maldizer.
Com os romances, essa ação se amplia. Eça acentua o seu pendor de caricaturista e cria uma grande galeria de quadros, de Cenas Portuguesas em que se dramatizam, de diferentes maneiras, a vida política, a social e a moral da época.

O seu primeiro grande romance “revolucionário” é O Crime do Padre Amaro. Nele, o anticlericalismo da Geração de 70 vem à tona com toda a força que já se anunciava nas Conferências do Casino. A acusação aguda, o menosprezo e o desdém são os ingredientes dessa Cena de Maldizer onde o baixo clero é colocado em questão. Por outro lado, as fortes cenas de Realismo/Naturalismo lançam definitivamente o nosso autor no cenário das letras portuguesas. Para Álvaro Lins,

Este livro não inovou, apenas, a carreira literária de Eça de Queirós. Foi a própria Literatura Portuguesa que ele revolucionou, com espantosa violência, iniciando o realismo português – do qual o seu autor se tornou, de repente, o profeta, o pregador e o mestre.[13]

Com O Primo Basílio o escritor dá continuidade à sua “arte de combate”, acutilando agora a classe média lisboeta. Mas neste romance o seu foco principal é a mulher da pequena burguesia, com sua educação romântica, sua vida ociosa e sua franca aptidão para o adultério. Pobre Luísa! – personagem-símbolo de uma classe, construída para ter a sua intimidade vasculhada e censurada em nome da moral e da educação da doméstica mulher caseira. No entanto, apesar de todo o processo de vitimização sofrido por Luísa no romance, são sempre os personagens masculinos que merecem a maior atenção do autor, fazem parte das suas preocupações, do mesmo modo que o inquieta a coerência revolucionária de seu projeto:

[…] O Primo Basílio não está inteiramente fora da arte revolu-cionária, creio. Amaro é um empecilho, mas os Acácios, os Ernestos, os Saavedras, os Basílios, são formidáveis empecilhos: são uma bem bonita causa de anarquia no meio da transformação moderna: merecem partilhar com o Padre Amaro da bengalada do homem de bem.[14]

Entretanto, as pequenas alterações do projeto revolucionário – já pressentidas em O Primo Basílio – vão ganhando força na exata medida em que as Cenas de Maldizer vão perdendo espaço para as veladas Cenas de Escárnio, de ironia fina e corrosiva que vão predominar nos próximos romances do autor. Os Maias são o grande romance dessa segunda fase. E é nas cenas desse romance que concentraremos a parte final deste texto.

No projeto “Cenas da Vida Portuguesa”, em que Eça buscou retratar diferentes segmentos da sociedade sua contemporânea, o romance Os Maias é, de longe, a obra mais realizada, a maior e mais bem estruturada. Publicados em 1888, Os Maias concentram muitas das questões já tratadas por Eça em outros textos e, ainda, desdobram vários dos personagens que neste romance ganham um perfil mais definido, mais trabalhado. Escrito durante oito longos anos, o que tinha sido planejado para ser uma reduzida novela foi crescendo e ocupando cada vez mais a vida do autor que, em 1881, escreve a Ramalho Ortigão, afirmando: “Decidi logo fazer não só um romance, mas um romance em que pusesse tudo o que tenho no saco”. É nesse sentido que apontamos para a retomada, o prolongamento e o aprofundamento de muitas das idéias desenvolvidas em outras obras do autor. É o seu romance de maturidade, obra que, segundo José-Augusto França, responde “melhor que qualquer outro romance à questão posta em 1850 sobre a possibilidade de um romance português”.

Como também já apontamos, é o romance “de viragem”, onde o seu fino processo de escrita se adensa e a cuidadosa observação dos fatos se agudiza, permeada pela melhor expressão de sua ironia. Parecem agora mais reais (porque menos lineares) os quadros que o romance vai encenando na longa galeria de suas páginas. Afastam-se um pouco os quadros em que se debatiam os personagens dos romances anteriores.

Em outras obras, como O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e, principalmente, A Capital, o recorte social escolhido para observação crítica era mais limitado, restrito até. Poder-se-ia dizer que Eça, nestes romances, construía tipos sociais, desenhados a traço forte, para dar suporte ao desenvolvimento das teses com que pretendia acutilar o mundo português que se dirigia pela oficialidade, pelo sentimento, pela literatura romântica, pela agricultura e pela superstição. Enfim, o mundo provinciano que urgia criticar pedagogicamente em nome de uma “reforma dos esquemas mentais da vida nacional”. Mas, apesar da grandiosidade dessa proposta, parece-nos que nestes livros o autor ainda “permanece à porta” observando “de fora” o limitado universo da pequena burguesia portuguesa.[15] Com Os Maias esse universo se amplia, se desdobra e se enreda. Poderíamos perguntar então: de que lugar Eça de Queirós “nos fala” nestas setecentas e poucas páginas que compõem Os Maias?

Se nos romances anteriores os estratos escolhidos para observação e “análise” se restringiam “aos universos medíocres do baixo clero e da pequena burguesia portuguesa”, n’Os Maias o posto de observação escolhido para criar os personagens e para dar continuidade ao seu “inquérito à vida portuguesa” é outro. O escritor olha a sociedade de um lugar bem definido, bem demarcado: o da alta burguesia portuguesa ou, mais especificamente, o do seleto grupo que se reunia no Ramalhete. António José Saraiva chama a atenção para o fato de que

[…] é principalmente nestes incomparáveis salões dos Maias, onde Eça deixa passar as horas lentas […] naquela soberba companhia de condes e diplomatas (qual mais sólido, qual mais digno, qual mais discreto ou qual mais britanicamente esticado), é nestes salões dos Maias que Eça estabelece o seu quartel-general. Daqui vê a burguesia, vê os políticos e vê os seus companheiros aristocratas.[16]

Em torno do Ramalhete instala-se o pormenorizado inquérito aos diferentes segmentos da sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX.

Privilegiando dois grandes eixos significativos – a história de Carlos e Maria Eduarda e a sociedade portuguesa da época – o romance vai desenvolver-se num processo de oposições contínuas e articuladas que, antes de tudo, evidenciam a coexistência de dois mundos distintos no romance. De um lado, temos os freqüentadores do Ramalhete (seriam eles representações dos freqüentadores do Cenáculo?) e em oposição a esse núcleo seleto, essa “ilha” encravada no bairro das Janelas Verdes, teríamos o grupo dos homens que formam esse “país impossível”, essa “outra raça” que, segundo o personagem Ega “depois de cinquenta anos de constitucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o músculo como perdera o caráter, e era a mais fraca, a mais cobarde raça da Europa […]”.

Esse ponto de vista extremado e bastante coerente com o tom iconoclasta que marca o personagem funciona como uma “fórmula exata”, é o resumo acutilante do país que no romance vai ser desdobrado nas falas dos outros personagens esclarecidos que se agruparam no solar dos Maias. Por esse processo, todas as mazelas da classe dirigente portuguesa, agregados ou personalidades menores, ficam demarcadas pelo olhar acurado e crítico desse grupo fidalgo que se mantém afastado – a uma “distância higiênica”[17] – da classe de subalternos que inexplicavelmente dirige o país. É pelo olhar de Carlos e Ega que a ignorância e o ridículo do Conde Gouvarinho (homem de Estado, legislador e ministro) ganha relevo. É pela percepção fina do maestro Cruges que os espetáculos do São Carlos mais desafinam. É pela ironia corrosiva de Ega que se pode perceber quais são as qualidades essenciais para se chegar a ministro: “ter voz sonora, ler Maurício Block, estar encalacrado e ser um asno”. Pela voz do marquês, temos a defesa do artigo com que Ega elogia as falsas qualidades do banqueiro Cohen, de cuja mulher é o amante:

O marquês protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de velhaco!… E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso moral? […] Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo mundo acha isso muito natural. É íntimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisonjeia o marido. Está na lógica cá da terra…

Por fim, é pelo ponto de vista do grupo fidalgo do Ramalhete que o “Portugal impossível”, é dissecado por Eça. Políticos, banqueiros, jornalistas, empregados de secretaria e outras personalidades influentes são peças fundamentais ao “diagnóstico da crise portuguesa”. A esse processo parece escapar a família real, o Paço, mas, se olharmos bem, veremos que este segmento é criticado pela ausência de interesse, pelo desdém que desperta no Solar dos Maias.

É significativa a opção pela “esmola”, feita por Afonso, como uma espécie de saída extrema ante as desigualdades sociais de seu país. No entanto, junto a seus pares a sua fala também é judicativa. Com três conselhos, o velho Afonso indica o “programa” para tirar Portugal da crise: “aos políticos: ‘menos liberalismo e mais caráter’; aos homens de letras: ‘menos eloquência e mais ideia’; aos cidadãos em geral: ‘menos progresso e mais moral'”. Na fala deste velho liberal já se indicia algum traço de “desistência” que a pilhéria e a verve dos mais jovens mal deixa entrever.

Num segundo plano, mas não menos significativo, são também criticados os espetáculos e outras reuniões sociais que animam a Lisboa da época: os espetáculos do São Carlos, a corrida de cavalos, os saraus, os jantares e os encontros no Grêmio são, nesse romance, outra forma utilizada pelo autor para “pintar” de forma mais ou menos direta o baixo nível cultural da sociedade em questão. Em todas essas manifestações, os membros do Ramalhete afastam-se “sufocados”, como Craft, diante da reconciliação muito “portuguesa” de Ega e Alencar no Jantar do Hotel Central:

São extraordinários – disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapéu – Desorganizam-me, preciso de ar!… [grifo]

Dando relevo à deselegância dessas reuniões sociais, avulta ainda a falta de cultura e de espírito dos homens e mulheres que freqüentam esses ambientes. De um lado, os homens públicos – verdadeiros desdobramentos do Conselheiro Acácio – com suas inevitáveis sentenças vazias. De outro, as mulheres que, pela linear futilidade de seus interesses e ações, não desmentem a já conhecida galeria de personagens femininos que Eça construiu ao longo de sua obra. São personagens pouco caracterizados, sem um traço particular que as distinga. São, por outro lado, expressões mais ou menos enfáticas do único sentimento que as move: “o gosto romanesco da aventura amorosa”. Em sua maioria, são mulheres casadas que, como a Luísa do romance O Primo Basílio, vêem no adultério a oportunidade para viver um “episódio interessante” que quebre a monotonia da vida conjugal.

Eça não foi um escritor que celebrasse grandes amores. Ao longo de sua obra, o amor vai ser muito mais a expressão de uma dolorosa atração sexual que, ao ser prolongada, assume as proporções de um pecado, um crime ou um incesto. Os Maias não fogem à regra. O terror do amor sacrílego d’O Crime do Padre Amaro e a vitimização de Luísa, decorrente de seus amores adúlteros por Basílio, parecem quadros de um dramatismo menor face ao trágico desfecho dos amores de Carlos e Maria Eduarda.

Vale notar que Maria Eduarda é a mulher de maior relevo na obra de Eça. Diferente das outras personagens femininas, Maria não é superficial ou fútil, nem romanesca ou adúltera. A sua descrição é a de uma deusa (ou uma estrangeira) que caminha com elegância pelas ruas de Lisboa. O seu difícil passado é perfeitamente explicável na sua defesa sincera e simples. Em todos os pormenores, Maria também se distingue do simples burguês. Na opinião de Ega, era natural que dois seres superiores que se cruzam na “pequenez da Baixa e do Aterro” fatalmente se atraiam: “Assim o conhecerem-se era certo, o amarem-se era provável.” Mas o que para Ega não podia ser explicado era a fatalidade. A fatalidade era sentida por ele como uma “catástrofe de dramalhão”. Em sua fina percepção de artista, essa catástrofe

Não estava no feitio da vida contemporânea […] Tais coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como invenções sutis da arte, para dar à alma humana um terror novo…

Parafraseando os pensamentos de Ega, poderíamos dizer que neste romance, Eça de Queirós construiu uma estória de amor para completar – com um “terror novo” – a sua galeria de amores impossíveis.
São estes os dois eixos significativos que, no início, apontamos como os mais importantes deste romance. Entretanto, num outro plano, pensamos que ainda existe uma questão que merece ser explorada: o traço que agrega os diferentes membros do Ramalhete.

Já foi dito que a sua distinção em muito os destacava da comum sociedade que os rodeava. No entanto, estes personagens também são marcados pela inércia, pelo diletantismo e pela total incapacidade de realização dos seus planos. Por outro lado, também foi apontada a estreita sintonia existente entre o seu olhar crítico e o olhar com que Eça analisou as principais questões de seu tempo, num diálogo constante com a sociedade portuguesa sua contemporânea.

Ora, poderíamos concluir que, em parte, a base do projeto de Eça também se inscreve nos “revolucionários” projetos de Carlos da Maia e de João da Ega. Carlos, no início da carreira, acredita que a medicina só poderia ser exercida a sério. Nesse sentido, monta consultório, laboratório e projeta escrever um grande livro. O projeto literário de Ega não é menos ambicioso, nem menos grandioso. No entanto, numa cena de escárnio, a ironia fina de Eça nos vai mostrando que esses projetos não passam de projetos e se vão perdendo no passar das páginas. O luxo sensual com que foi montado o consultório de Carlos parece seguir nessa mesma linha de crítica sutil com que Eça envolvia esses personagens.
Num plano mais amplo, muitas das idéias trabalhadas pelo autor aparecem com mais ou menos relevo nas falas dos personagens do Ramalhete. Acima de tudo, há uma coincidência no tom, na frase de efeito, na ironia acutilante, na pilhéria e na blague. Seria então possível afirmar que Eça também colocou em cena de escárnio n’Os Maias o seleto grupo do “Cenáculo” com suas propostas de modernização do país? É bem provável que sim. Para António Sérgio, “Assim como sucede nos melhores humoristas, o autor d’Os Maias satirizou-se a si mesmo”.

Como explicar, então, o sentimento de desistência que domina as últimas páginas do romance e é sintetizado pela frase do Ega: “Falhamos a vida, menino!”?

Estaríamos diante de uma postura já característica do grupo dos “Vencidos da Vida” a que Eça viera pertencer? Ou diante de uma posição menos moderna e, no entanto, mais realista em relação ao grande projeto de modernização do país?

Referências bibliográficas:

BERMAN, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar: a Aventura da Modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
FRANÇA, José-Augusto. O Romantismo em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
LOURENÇO, Eduardo. O Labirinto da Saudade. Lisboa: Dom Quixote, 1978.
MATOS, A. Campos. Dicionário de Eça de Queiroz. Lisboa: Caminho, 1993.
ORTIZ, Renato Cultura e Modernidade. São Paulo: Brasiliense, 1991.
QUEIRÓS, Eça de. “Carta a Teófilo Braga”. Correspondência. Porto: Lello & Irmão, 1978.
——. Os Maias. Lisboa: Livros do Brasil, 2000.
SARAIVA, António José. As Ideias de Eça de Queirós. Lisboa: Bertrand, 1982.

Notas:

* 1 Este texto articula-se com as pesquisas que venho desenvolvendo a partir do projeto apoiado pelo CNPq “A Lisboa de José Cardoso Pires encenada na multiplicidade de seus relatos”. Processo no 300 497/93-8.
* 2 Cf. José-Augusto França, O Romantismo em Portugal, Lisboa, Livros Horizonte, 1993, p. 249.
* 3 Cf. José-Augusto França, op. cit., p. 250.
* 4 D. Pedro V. Cartas – Príncipe Alberto, p. 89 apud José-Augusto França, op. cit., p. 245.
* 5 Cf. José-Augusto França, op. cit., p. 248.
* 6 José-Augusto França, op. cit., p. 246.
* 7 Cf. Renato Ortiz, Cultura e Modernidade, São Paulo, Brasiliense, 1991, p. 263.
* 8 Renato Ortiz, op. cit., p. 268.
* 9 Eduardo Lourenço, “Da literatura como interpretação de Portugal”, in: O Labirinto da Saudade, Lisboa, Dom Quixote, 1978, p. 90.
* 10 Marshall Berman, Tudo que É Sólido Desmancha no Ar: a Aventura da Modernidade, São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p. 21.
* 11 Cf. José-Augusto França, op. cit., p. 465.
* 12 Fialho de Almeida, in: A. Campos Matos, Dicionário de Eça de Queirós, Lisboa, Caminho, 1993, p. 415-416.
* 13 Álvaro Lins, in: A. Campos Matos, op. cit., p. 244.
* 14 Eça de Queirós, “Carta a Teófilo Braga”, in: Correspondência, Porto, Lello & Irmão, 1978, p. 52.
* 15 Cf. António José Saraiva, As Ideias de Eça de Queirós, Lisboa, Bertrand, 1982.
* 16 António José Saraiva, op. cit.
* 17 Id., ibid.

Fonte:Revista SEMEAR 6
CÁTEDRA/PUC-RIO

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