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OS MAIAS, EÇA DE QUEIROZ ,Boal Biblioteca On-lineÁudio de Literatura

Posted in AUDIO, EÇA DE QUEIROZ, OS MAIAS on 28 de Abril de 2008 by os.maias
Autor: Eça Queirós
Ano nascimento: 1845
Ano óbido: 1900
Época: Realismo e correntes finisseculares
Obras: · Os Maias
· Civilização
· O Primo Basílio
· Frei Genebro
· Uma Campanha Alegre
· Correspondência de Fradique Mendes
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Gilberto Freyre: a leitura sociológica da obra de Eça de Queirós

Posted in EÇA DE QUEIROZ, OS MAIAS on 28 de Abril de 2008 by os.maias

Gilberto Freyre escreveu em suas autobiografias que, aos dezesseis anos, já tinha lido quase toda a obra de Eça de Queirós. Essa admiração pelo autor de Os Maias pode ser constatada nas inúmeras referências a Eça e a seus personagens, encontradas na vasta obra de Freyre e que apontam para as qualidades da análise sociológica de Eça, para o seu apego às tradições portuguesas ou para o seu hipotético regionalismo telúrico.

Segundo Sebastião Vila Nova:

Difícil não cogitar tenha Eça causado impressão indelével e influência marcante em quem o tenha lido tão jovem. Como um realista, embora não ortodoxo, Eça foi inevitavelmente um cronista de costumes, um ficcionista etnográfico e sociologista, ao modo de Balzac e, principalmente, Flaubert e Zola. Cabe, a esta altura, especular: em que medida o etnografismo ostensivo e o inevitável sociologismo, tão afiados em Eça, não terão despertado a inteligência e a sensibilidade do adolescente que viria a torna-se uma das mais penetrantes e refinadas expressões nos estudos sociais no Brasil? (2000,p.198)

Tomando como referência esse questionamento, tentaremos registrar pontos similares entre as obras de Eça de Queirós e de Gilberto Freyre, a partir da reconstituição da leitura que o escritor brasileiro fez dos textos do literato português. Uma primeira interpretação da obra dos dois escritores permite-nos estabelecer que Gilberto Freyre, um precursor no estudo do hibridismo cultural brasileiro, e Eça de Queirós tinham em comum uma visão que poderia ser designada por parte da crítica pós-colonialista como “transcultural”: ambos escreveram obras que valorizam a tradição cultural de seus respectivos países, após terem tido contato com a de outros, considerados mais desenvolvidos.

É evidente que o adjetivo “transcultural” não pode ser, a rigor, empregado em relação a Eça de Queirós, já que o termo foi cunhado tempos depois de seus escritos, não havendo também entre Portugal e os centros de poder da Europa uma distância cultural tão grande quanto aquela presente nos meios coloniais que inspiraram a formulação do termo por Angel Rama. Mas acreditamos que sua aplicação no caso de Eça, ainda que um tanto impropriamente, e tendo isso em vista, pode gerar interessantes reflexões.

Tanto Gilberto quanto Eça afastaram-se de sua terra natal e a visão distanciada, a formação universal, permitiu um olhar sobre o regional a partir do “iodo da oceanidade”, do “sal da universalidade” e de “valores transnacionais” (Freyre,1978, p.17). Ambos são simultaneamente cosmopolitas e regionalistas, modernos e tradicionais, conscientes dos valores universais, mas valorizando os locais. Enquanto o diplomata Eça se caracteriza ironicamente como apenas um “pobre homem de Póvoa de Varzim”, Freyre, em entrevista à TV Cultura, de São Paulo, na década de 1970, afirmou: “Sou um brasileiro de Pernambuco. Gosto muito de minha província. Sou sedentário e ao mesmo tempo nômade. Gosto da rotina e gosto da aventura. Gosto dos meus chinelos e gosto de viajar.”(Maciel, 2000, p.330).

Essa primeira hipótese sobre a semelhança do caráter sociológico de algumas obras dos dois autores, arquitetadas e escritas quando ambos estavam longe de sua terra natal, pode ser reforçada pela visão de Edward Said a propósito desse assunto, no ensaio “Reflexões sobre o exílio”.

Embora talvez pareça estranho falar dos prazeres do exílio, há certas coisas positivas para se dizer sobre algumas de suas condições. Ver ‘o mundo inteiro como uma terra estrangeira’ possibilita a originalidade da visão. A maioria das pessoas tem consciência de uma cultura, um cenário, um país; os exilados têm consciência de pelo menos dois desses aspectos, e essa pluralidade de visão dá origem a uma consciência de dimensões simultâneas, uma consciência que – para tomar emprestada uma palavra da música – é contrapontística.

Para o exilado, os hábitos de vida, expressão ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memória dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes são vívidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto. (Said, 2003, p.46)

Partindo da leitura desse excerto, pode-se pensar que a mudança gradual da visão de Eça de Queirós em relação a Portugal poderia ser, em parte, atribuída a seu “exílio” na França. Sua longa ausência da pátria, interrompida por breves retornos, começa aos 27 anos, em 1872, quando assume cargos diplomáticos em diversas partes do mundo, conhecendo, inclusive, a trabalho ou simplesmente a passeio, regiões então colonizadas.

Ainda segundo Said (2003, p.54), nesse mesmo ensaio, a palavra “exílio” não seria a melhor a ser empregada no caso de Eça, e sim, mais apropriadamente, “emigrado” ou “expatriado”, visto que se retirou para Paris, de certa forma voluntariamente, podendo, se assim o quisesse, desistir de suas funções diplomáticas a qualquer momento e retornar a sua pátria. Mas, se a definição da palavra não se ajusta rigorosamente à situação do escritor, com certeza, “o sentimento do exílio”, sim. Sabemos que esse sentimento cria, no exilado, uma visão mítica, memorialista, essencialista de sua terra. Esse mesmo sentimento poderia ter sido a motivação que levou Gilberto Freyre a escrever, em 1922, na Universidade de Columbia, Nova York, sua dissertação para obter o grau de Mestre sobre a Vida social no Brasil nos meados do século XIX, texto embrionário daquela que viria a ser a sua principal obra: Casa Grande & Senzala.

A publicação de Os Maias, em 1888, foi considerada por Antonio Candido como o grande marco da mudança ideológica de Eça:

… Eça já não era mais o romancista urbanófilo das primeiras obras, como também já não era mais o socialista dos primeiros tempos: havia abandonado a linha da oposição e do sarcasmo integral. O colaborador d’As Farpas ¾ para quem a salvação do país estava na introdução do progresso técnico e científico, na liquidação do paternalismo agrário ¾ começara a se deixar invadir pela sedução do velho Portugal. Os seus romances irão revelar, pouco a pouco, um abandono do ponto de vista urbanista em proveito do sentimento rural; em proveito daquele mesmo passado que ele a princípio renegou integralmente.

Os Maias exprimem com nitidez este recuo ideológico. (1978, p.41)

… Nessa passagem da cidade para o campo Os Maias ocupam posição-chave, porque significam a liquidação definitiva da sociedade lisboeta, e porque na sua trama ressalta a quinta Santa Olávia como contrapeso e fonte de energia moral. O campo abastece a cidade de material humano. (1978, p.43)

Ainda que haja, a partir de Os Maias, uma postura mais complacente de Eça de Queirós com o povo português e seus hábitos, tão duramente por ele criticados em seus textos anteriores, ficcionais e jornalísticos, devido à sua estagnação cultural, política e econômica, frente ao progresso de outros países europeus, parece-nos que isso só acontece porque a cidade, e o referencial civilizacional, que representa começa a perder força dentro da obra de Eça. É menos complacência com o campo e com a cultura tradicional portuguesa, do que detração da cidade e decepção com a que seria a alta cultura européia.

Diríamos que a possibilidade de analisar seu país à distância, “a consciência contrapontística”, pode ter provocado em Eça (e por que não também influenciado Gilberto Freyre?) uma reavaliação de seu julgamento em relação à tradição cultural, à história, e ao passado do povo português, considerando-o mais positivo em vista da negatividade que passou a encontrar no até então imaculado ideal europeu (ou melhor, francês e inglês) de civilização.

Escreve Said no mesmo ensaio: “Chegamos ao nacionalismo e sua associação essencial ao exílio. O nacionalismo é uma declaração de pertencer a um lugar, a um povo, a uma herança cultural.” (2003, p.49)

Podemos também perceber que o escritor português, à medida que se afasta de sua terra, vai aguçar sua crítica à história da cultura de seu país, marcada desde o século XVIII por uma postura quase servil ou subalterna em relação a tudo que vinha dos países europeus situados além da Península Ibérica. Seu texto O francesismo (Queirós, 1947, v.XI, p.333-357), escrito entre 1887 e 1888, é capital para se entender essa sua nova fase: marcada por um forte aspecto sociológico, faz severas críticas sobre a mentalidade e as atitudes portuguesas afrancesadas, desde a culinária até o âmbito das idéias.

A partir da leitura do texto O conceito de transculturação na obra de Angel Rama, de Flávio W. Aguiar e de Sandra Guardini T. de Vasconcelos, notamos várias semelhanças entre a descrição da formação intelectual de Guimarães Rosa, Gilberto Freyre e, para nós, também de Eça de Queirós. Essa formação intelectual teria feito de Guimarães Rosa um “transculturador”, segundo alguns teóricos dos estudos culturais. O referido modernista brasileiro foi descrito como “um escritor cuja formação foi profundamente marcada por essa experiência de mediação entre dois mundos, ou entre dois modos de vida, um rural e tradicional e outro urbano e moderno” (Aguiar & Guardini, 2003, p.4), que se formou lentamente nas artes da narração, leitor de assuntos como religião, literatura, filosofia, que correu o mundo como diplomata e “cuja mistura programática desses saberes” faz de sua obra “um espaço entre a modernidade urbana e a cultura tradicional-oral das comunidades rurais”. (Aguiar & Guardini, 2003, p.5)

Levando-se em conta que Gilberto Freyre só não foi diplomata, a descrição acima poderia ser atribuída tanto a Freyre quanto ao escritor português. Não queremos aqui ousar empregar a mesma classificação de transculturador para Eça, já que essa denominação é normalmente empregada para artistas e intelectuais oriundos de países submetidos à colonização; mas, não deixa de ser instigante essa comparação entre Guimarães Rosa e Eça de Queirós, se pensarmos em Portugal como um país periférico, uma verdadeira colônia da Europa, cuja cultura “macaqueava”:

… Bem mais justo era o horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa, a inábil, descomedida e palpava imitação de Paris. Essa “saloia macaqueação”, superiormente denunciada por ele numa carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, num luminoso resumo, que “Lisboa é uma cidade traduzida do francês em calão¾ tornava-se para Fradique, apenas transpunha Santa Apolônia, um tormento sincero. E a sua ansiedade perpétua era então descobrir, através da frandulagem do francesismo, algum resto genuíno de Portugal. (Queiroz, 1947, v.VI, p.388)

Eça acreditava que sua terra natal teria passado à condição de “colônia” econômica da Inglaterra, depois do Ultimato, em 1890. Será que o isolamento do escritor em seus últimos anos em Paris, tendo poucas amizades, quase restritas à de brasileiros lá residentes, como Eduardo e Paulo Prado, não viria a confirmar o “sentimento de exílio” a que se refere Said? Estaria na raiz da sua empatia com pessoas provenientes de um país colonizado, a consciência de que a sua condição de cidadão português não era muito diferente da deles?

Gilberto Freyre, no parágrafo inicial do prefácio à 1ª edição de Casa-Grande & Senzala, escreve sobre a gênese da obra, onde inclui a importância do exílio na sua elaboração: “Em outubro de 1930 ocorreu-me a aventura do exílio. Levou-me primeiro à Bahia; depois a Portugal, com escala pela África. O tipo de viagem ideal para os estudos e as preocupações que este ensaio reflete.” (1975, p.lv). Mais adiante, comenta que, tendo sido convidado, em 1931, para ministrar alguns cursos na Universidade de Stanford, regressou da Califórnia a Nova Iorque através do Novo México, do Arizona e do Texas. Sobre essa experiência, escreve:

A todo estudioso da formação patriarcal e da economia escravocrata do Brasil impõe-se o conhecimento do chamado ‘deep South’. As mesmas influências de técnica de produção e trabalho – a monocultura e a escravidão – uniram-se naquela parte inglesa da América como nas Antilhas e em Jamaica, para produzir resultados sociais semelhantes aos que se verificaram entre nós. Às vezes tão semelhante que só varia o acessório: as diferenças de língua, de raça e de forma de religião. (1975, p.lvi – lvii)

Concluindo essa linha de pensamento, lembremos também Abdala, ao escrever sobre o “(…) sentimento de exílio, de que se imbuía a intelectualidade brasileira: ao ir à Europa, Nabuco sente a ausência da pátria; se está no país, sente a ausência do mundo” (Abdala, 2002, p.46). Podemos, similarmente, empregar as mesmas palavras em relação a Eça e a Gilberto Freyre, confirmando neles a visão transculturadora:

… essa perspectiva de fronteiras múltiplas do homem dividido ou integralizado em pelo menos duas fronteiras, onde ele se desenraíza de sua terra de origem sem se enraizar na terra de origem dos outros, coexistindo com grupos sociais migrantes de outras culturas, pode favorecer a criação de hábitos críticos, em razão dessa contraposição de perspectivas. Através desses contatos e ausências, próprios de uma população nômade, em constante circulação e deslocamento, a identidade afirma-se ainda mais como vir-a-ser, sem um porto de chegada, permitindo o afastamento de mitologias essencialistas. (Abdala, 2002, p.46-47).

Eça de Queirós na formação intelectual de Gilberto Freyre

Segundo a reportagem de Cristiana Tejo “Centenário reacende ecite em Pernambuco”, Paulo Cavalcanti, um dos maiores estudiosos do escritor português, considera Recife a cidade mais eciana do País. Nela se formou a Sociedade Eça de Queiroz, que desde 1948 promove reuniões para conversar e discutir a obra do prosador português, nos jantares Ecianos do Recife. Citando ainda o artigo:

Até a década de 50, eram os brasileiros os maiores apaixonados e estudiosos do escritor, febre chamada por muitos como ecite e que atingira não apenas grande parte da população mas também autores que se declararam influenciados por ele, como Martins Pena, Martins Fontes, Olavo Bilac, Domício da Gama, Eduardo e Paulo Prado e outros notáveis admiradores como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, José Lins do Rego. (Tejo, 2000)

Gilberto Freyre, freqüentador assíduo das rodas intelectuais pernambucanas, parece ter se contaminado pela ecite já em sua casa, pois o ensaísta comenta a presença de Eça em sua formação intelectual, desde a infância: o autor de Os Maias figurava entre os preferidos do Professor Alfredo Freyre, pai de Gilberto, como este evoca:

Seus clássicos prediletos eram Camões, Frei Luís de Souza, Castilho e Herculano. Dentre os brasileiros, Vieira. Mas sem deixar de saborear o seu Oliveira Martins, o seu Ramalho Ortigão e o seu Eça, a quem perdoava os galicismos por amor ao que, no autor de Os Maias, era graça literária, ironia viva, coragem de crítica social. (Freyre, 1964, p.27)

No livro memorialista Tempo morto e outros tempos, em confissão registrada em 1916, revela o escritor brasileiro: “Mário Severo me aconselha Flaubert, que ainda não li. Eça já li quase todo; é o autor mais lido pelos estudantes da ‘república’ de Mário que me emprestou um livro de Eça que eu não conhecia: Prosas Bárbaras. Meu entusiasmo é pelo Os Maias.” (Freyre, 1975, p.9)

Essa admiração se encontra em alguns de seus ensaios, como, por exemplo, quando Gilberto Freyre, expressando sua opinião sobre o assunto em pauta, busca legitimar seus argumentos em Eça, através da voz de Carlos da Maia:

Neste ponto me parece ter acertado com a verdade o Eça de Queiroz através do Carlos da Maia: o Carlos da Maia tão conhecido de tantos de nós, devotos daquele ouro Santo Antônio de Lisboa que se tornou para os brasileiros dos princípios deste século de pouca fé e de muita literatura, o “pobre homem de Póvoa de Varzim”. (Freyre, 1965, p.88)

Esse entusiasmo com Os Maias e com a produção de Eça posterior a ela, incluindo-se a jornalística, é extremamente precoce, uma vez que toda a crítica portuguesa da época, como se pode verificar em Antonio José Saraiva, considerava os textos da segunda fase de Eça uma obra menor, um regresso ao nacionalismo romântico de Júlio Dinis. Provavelmente, as características sociológicas que o escritor português imprimiu em suas obras, já chamavam a atenção do jovem ensaísta.

Essa atenção pode ser percebida nas inúmeras referências ao autor português feitas por Gilberto Freyre, em seus mais diversos textos, principalmente em conferências e artigos publicados na imprensa. Observe-se, no excerto baixo, a admiração pela análise sociológica de Eça:

(…) desde os meados do século XIX a África negra tomaria também cores messiânicas aos olhos de portugueses com a velha fibra pioneira e o antigo gosto por aventuras nos trópicos -inclusive a aventura da evasão, da fuga, naquela época de afrancesamento e de anglicização das elites portuguesas – em revolta contra a proximidade, em que se passou a viver na metrópole, aos excessos mecânicos e aos requintes ao mesmo tempo técnicos, cientificistas e “decadentistas” em arte e literatura, da Europa. Excessos, estes, que seriam duramente ridicularizados por um escritor português de gênio, cuja figura avulta do Portugal da segunda metade do mesmo século XIX com um extraordinário relevo: Eça de Queiroz. E’ que Queiroz, sob a aparência de simples diletante em torno de assuntos sociológicos e históricos relacionados com Portugal – os da especialidade do seu amigo e sob alguns aspectos, mestre, Oliveira Martins- fez às vezes, neste particular, obra de analista social arguto, e parece ter sido dos que começaram a compreender, no fim da vida, depois de ele próprio ter sofrido do mal do “francesismo” e um tanto de “anglicismo”, haver no passado da sua gente constantes capazes de concorrerem, bem reorientadas e rearticuladas, para um rejuvenescimento português, que se processasse sob um novo sistema de relações dos portugueses modernos com aquele seu passado -com as sugestões mais fortes vindas daquele passado dinâmico: sugestões para contactos viris, másculos, renovadores, de portugueses com os trópicos agrestes: como os africanos e os sertanejos do Brasil, antes capazes de avigorar energias européias que de enfraquecê-las… (Freyre, 1957, p.2 )

Em 1942, Gilberto Freyre escreveu o prefácio à seleção que organizou de As Farpas, com o título “Eça, Ramalho como renovadores da literatura em língua portuguesa”, fazendo uma leitura sócio-antropológica da obra. Esse prefácio foi revisto e publicado, em 1978, em Alhos & Bugalhos, com a seguinte proposta:

A revisão de seu valor literário e a revisão de seu valor social, os dois [Eça e Ramalho] tendo atuado como revolucionários, ou, antes, como renovadores não só das convenções estéticas da língua e da literatura como das convenções sociais do povo e da nação que criticaram duramente para afinal terminarem cheios de ternura patriótica e até mística pela tradição portuguesa. Um [Eça] revoltado contra o “francesismo” ou o “cosmopolitismo” que o afastara dos clássicos, da cozinha dos antigos, da vida e do ar das serras… (Freyre, 1978, p.15)

A partir da leitura integral desse texto, percebemos que Freyre lê no “sociólogo” Eça, algumas de suas próprias características como escritor, talvez até para legitimar seus textos como literários e não apenas como científicos, como foram classificados por parte da crítica. Sabemos que o ensaísta pernambucano não aceitou essa avaliação, escrevendo inúmeros artigos para defender o aspecto literário e humanístico de suas obras.

Podemos perceber que o autor, no referido prefácio de As Farpas (1978), pode estar se identificando com Eça nos seguintes aspectos:

1. A visão sociológica nas obras de Eça estaria evidente na

… Empatia que leva à identificação do autor com o conjunto de seres, coisas, valores arrancados de um pedaço não só de natureza bruta mas da cidade, do passado ainda quente ¾ passado já presente e um pouco futuro ¾ ou do remoto; e conservados vivos com a sua cor, sua seiva, seu nervo, no ensaio, no romance ou no poema. (Freyre, 1978, p.19)

Essa visão sociológica, sabemos, predomina na diversificada obra de Gilberto Freyre, inclusive em suas incursões literárias, como na poesia “Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados”.(Freyre, 1962)

2. Ambos “arrivistas” ou “parvenus”, expressões de Freyre no texto, quando distantes do país, conseguem enxergar o telúrico da terra e perceber melhor a importância das próprias tradições: “O regionalismo de telúricos acabou se sobrepondo ao universalismo de europeus e ultramarinos.” (Freyre, 1978, p.18)

3. Haveria uma vigorosa identificação dos escritores, Eça e Gilberto, com o meio: “o solo, o clima, os aspectos da paisagem, o sexo, a idade, o temperamento, a idiossincrasia, a hereditariedade; influências sociais: as instituições, os costumes, a família, a educação, a profissão.” (Freyre, 1978, p.19)

4. A importância da habitação como índice sociológico nas suas obras (Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos) aparece também, segundo o ensaísta, na de Eça:

(…) o sentido ecológico da vida: a casa ¾ ecos quer dizer casa ¾ em relação com o ambiente, com o meio, com a região, com o passado, com a existência inteira do homem. (…) De Eça não nos esqueçamos que o melhor e maior de seus romances é a história de uma casa de portugueses afidalgados: o Ramalhete. A casa é o personagem principal de seu romance (Os Maias). (…) Como n’A Ilustre Casa de Ramires (…). N’A Cidade e as Serras também (…). Aquelas casas, instituições, monumentos, colégios, solares, palácios, destampados pela sua bisbilhotice de dilettanti, meio-historiadores, meio-críticos, pela sua arte de romancistas e de ensaístas, casas de cujo interior se levantavam às vezes tão fortes maus cheiros de decadência e de corrupção (…). (Freyre, 1978, p.20-21)

Em diversos escritos, Gilberto Freyre defendeu a identificação das casas como fonte de investigação sociológica, como em Retratos de jornais velhos: “Os homens e os livros muitas vezes mentem. A arquitetura quase sempre diz a verdade através de seus sinais de dedos de pedra.” (Freyre, 1964, p.19)

5. A ambigüidade de Eça em relação ao cosmopolitismo simultâneo ao apego à terra natal, apontada por Freyre em todo o prefácio, também é uma característica que se pode atribuir ao escritor brasileiro.

6. O ensaísta também nutria uma indisfarçável admiração por Oliveira Martins, historiador, sociólogo e economista do grupo realista português de 65, com quem Eça manteve forte correspondência durante toda vida:

Foi Oliveira Martins quem concorreu como ninguém para estabelecer ou pelo menos avivar entre Portugal e os dois escritores portugueses seus amigos [Ramalho Ortigão e Eça de Queirós], ansiosos de europeização, de universalização, de cientifização ¾ ânsia de que o próprio Oliveira Martins participava ¾, o contacto histórico, histórico-filosófico, histórico-sociológico.(…) Desses revolucionários, Martins foi, depois de Antero, a expressão filosófica mais nítida; e o mestre mais alto da aplicação da psicologia aos estudos portugueses de história e de crítica social. (Freyre, 1978, p.29)

7. Quando Gilberto Freyre defende o dilettantismo de que é acusada a obra As Farpas, não estaria ele também defendendo a sociologia funcionalista, que ele, Freyre, aprendeu com Franz Boas (pesquisa feita através da recolha de material não-canônico: conversações, estudos de casos particulares, relatos de histórias de vida etc)? Não seria também Eça de Queirós um incipiente nessa técnica, que depois seria amplamente empregada pelo por Gilberto Freyre? Escreve ele no prefácio de As Farpas:

A verdade é que nem só de especialistas e de acadêmicos vive a cultura de um povo, nem só por eles se enriquece; vive também dos dilettanti; se enriquece também com a atividade, as próprias audácias, os mesmos personalismos dos puros dilettanti e dos nada acadêmicos; ou dos indivíduos que reúnem à especialização científica e literária aquele humanismo ¾ a que tantas vezes é igual o melhor dilettantismo ¾ que permite ao especialista exceder-se à especialização. Aventura perigosa; mas cheia de possibilidades magníficas sempre que a anima um talento acima do comum, uma sensibilidade, uma visão, uma perspectiva, um sentido de totalidade capazes de extrair significados sociais e filosóficos da “cantiga de rua”, da “página de romance”, do bibelot, ao mesmo tempo que dos valores mais evidentes e mais nobres.

Foi o que fizeram Ramalho e Eça com a atualidade e um pouco com o passado de Portugal; foi o que fez Oliveira Martins com o passado e um pouco com a atualidade de seu país. (Freyre, 1978, p.29-30)

Considerações Finais

Procuramos resumidamente demonstrar que alguns pontos similares nas obras de Gilberto Freyre e Eça de Queirós não são frutos apenas da admiração do ensaísta brasileiro pelo literato português, mas o resultado de uma espécie de “metodologia do olhar”, que aproxima os dois intelectuais na abordagem e representação que fazem da realidade, o que lhes propiciou um papel de transcodificadores de realidades culturais.

Esperamos ter ressaltado a relevância desse aspecto tão pouco explorado na produção cultural de Freyre, ao identificarmos características de um incipiente sociólogo funcionalista no escritor português, através da leitura que o sociólogo brasileiro faz da obra de Eça. Podemos dizer que esta é a maneira que Gilberto Freyre, desde muito jovem, encontrou para consagrar Eça de Queirós não apenas como literato, mas como um grande mestre: um respeitado ensaísta, um analista crítico da sociedade de sua época e um entendedor a cultura de seu país e da cultura global em que esta se insere.

Bibliografia

ABDALA JUNIOR, Benjamin. Fronteiras múltiplas, identidades plurais: um ensaio sobre mestiçagem e hibridismo cultural..São Paulo, Editora SENAC. São Paulo, 2002.

AGUIAR, Flávio W., VASCONCELOS, Sandra Guardini T. O conceito de transculturação na obra de Angel Rama. 2003, USP. (Artigo inédito em cópia gentilmente cedida pelos autores para o curso Clássicos das Literaturas e das Culturas dos países de Língua Portuguesa, ministrado pelo Prof. Dr. Benjamin Abdala Junior da USP)

CANDIDO, Antonio. Tese e Antítese – Ensaios. 3ª ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1978.

FREYRE, Gilberto. A experiência portuguesa no trópico americano. México: Editorial Cultura, 1957.

___________. Alhos e bugalhos: ensaios sobre temas contraditórios, de Joyce a cachaça; de José Lins do Rego ao cartão postal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

___________. Tempo morto e outros tempos: trechos de um diário de adolescência e primeira mocidade, 1915-1930. Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1975.

___________. Talvez poesia. Editora José Olympio,1962.

___________. Retratos de jornais velhos . Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1964.

MACIEL, Marco. O Século de Gilberto Freyre. In.: SEMINÁRIO INTERNACIONAL NOVO MUNDO NOS TRÓPICOS. Recife, 21 a 24 mar. 2000.

QUEIROZ, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. In: Obras de Eça de Queiroz, Porto, Lello & Irmão, 1947, v.VI.

QUEIROZ, Eça de. O Francesismo. In: Últimas Páginas (manuscritos inéditos). Porto, Lello & Irmão, 1947, v.XI.

SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. Trad. Pedro Maia Soares.São Paulo, Companhia das Letras, 2003.

SARAIVA, António José. As idéias de Eça de Queiroz. Lisboa, Centro Bibliográfico, 1946.

TEJO, Cristina. “Centenário reacende ecite em Pernambuco”. Diário de Pernambuco,16.8. 2000. Texto disponível na Internet: http://www.institutocamões.pt/escritores/eca/reacendecite.htm [28/04/2003]

VILA NOVA, Sebastião. Eça de Queiroz e Gilberto Freyre: algumas aproximações. In.: SEMINÁRIO INTERNACIONAL NOVO MUNDO NOS TRÓPICOS. Recife, 2000.

Resumo

Alguns pontos similares nas obras de Gilberto Freyre e Eça de Queirós não são frutos apenas da admiração do ensaísta brasileiro pelo literato português, mas o resultado de uma espécie de “metodologia do olhar”, que aproxima os dois intelectuais na abordagem e representação que fazem da sociedade, propiciando-lhes um papel de transcodificadores de realidades culturais. Inúmeras citações de Freyre apontam para as qualidades da análise sociológica de Eça, em quem via, desde muito jovem, não apenas o literato, mas um grande mestre: um respeitado ensaísta, um analista crítico da sociedade de sua época e um entendedor da cultura de seu país e da cultura global em que esta se insere.

Palavras-chave: Gilberto Freyre, Eça de Queirós, transculturação, análise sociológica.

Abstract

Some of the points of similarity in the works of Gilberto Freyre and Eça de Queirós go beyond the deep admiration of the Brazilian essayist for the Portuguese writer, being the result of both men having the same perceptions in the analysis and representation of the society, in their role of translators of different cultural realities. Several citations through Freyre’s works point to Eça de Queirós acumen in sociological analysis. Gilberto Freyre, since an early age, saw him, not only as the writer but as a true master: a respect essayist, a critical analyst of his times, his country’s culture and of the global culture of which it was part.

KEY WORDS: Gilberto Freyre, Eça de Queirós, transculturation, sociological analysis.

Autora:

Vania Regina Gomes, aluna de mestrado na área de Estudos Comparados de Literatura e Língua Portuguesa, sob orientação do Prof. Dr. Helder Garmes e professora de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Médio na rede particular de ensino.

Queirós, José Maria Eça de

Posted in EÇA DE QUEIROZ, IMAGENS, OS MAIAS on 28 de Abril de 2008 by os.maias

O escritor Eça de Queirós, uma das figuras da chamada Geração de 70 e do grupo dos «Vencidos da Vida». Inaugurador do realismo literário português, foi alvo de críticas e ataques acesos por parte de alguns dos seus contemporâneos. Algumas das suas personagens tornaram-se tipos caricaturais da cultura portuguesa.

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Ramalho Ortigão e Eça de Queirós. Os dois foram autores da publicação As Farpas.

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Retrato do escritor e pensador português Antero de Quental. Foi o grande mentor intelectual da Geração de 70, dando início à Questão Coimbrã ao lançar a polémica do «Bom-Senso e Bom Gosto», atacando o grupo literário de António de Castilho. Apelidado pelo seu amigo Eça de Queirós de «Santo Antero», a sua obra revela uma inquietação humana e mística profunda. Deu um impulso significativo à implantação do socialismo em Portugal.

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O Casino Lisbonense, em Lisboa. Nele tiveram lugar, em 1871, as Conferências do Casino, organizadas pelo grupo da Geração de 70.

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Os «Vencidos da Vida». O grupo, formado por personalidades de relevo na vida portuguesa das últimas décadas do século XIX, era constituído por Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, António Cândido, Guerra Junqueiro, Eça de Queirós, Luís de Soveral, o conde de Ficalho, Carlos Mayer, Carlos Lobo d’Ávila e o conde de Sabugosa.

Escritor português, natural da Póvoa de Varzim. Oriundo de uma família burguesa e culta, dada a sua condição de filho ilegítimo passou grande parte da sua infância em Verde Milho, na casa dos avós paternos. Mesmo após o casamento dos pais, quatro anos depois do seu nascimento, aí continuou até 1855, ano em que se matriculou no colégio da Lapa, no Porto. Aqui conheceu Ramalho Ortigão, de quem se tornou amigo, embora aquele, filho do director do colégio e aí exercendo funções docentes, fosse nove anos mais velho que ele. Em 1861, entrou na Faculdade de Direito de Coimbra, concluindo a sua formação em 1866.

Em Coimbra, entrou em contacto com o movimento intelectual que então se iniciava, entre a juventude académica. Conviveu com personalidades como Teófilo Braga e Antero de Quental, mentor da célebre Geração de 70, de que também fez parte, assistindo ao desenrolar da Questão Coimbrã e lendo os autores e pensadores em voga, quanto às novas teorias sociais da Europa. Em 1866, já formado, instalou-se em casa dos pais, em Lisboa, no Rossio, e inscreveu-se como advogado no Supremo Tribunal de Justiça. A sua carreira de folhetinista e crítico teve início neste período, com os artigos publicados, entre 1866 e 1867, na Gazeta de Portugal, (onde conheceu Jaime Batalha Reis) e mais tarde reunidos sob o título Prosas Bárbaras (1903). Nestes artigos denota-se uma série de influências, manifestando-se, sobretudo, um temperamento ainda romântico e a originalidade estilística que viria a ser característica deste autor.

No final de 1866, partiu para Évora, onde, mantendo a sua colaboração na Gazeta de Portugal, dirigiu o jornal de oposição política O Distrito de Évora. Em Julho de 1867, regressou a Lisboa, onde exerceu advocacia. No final do ano formou-se o «Grupo do Cenáculo», de que Eça foi um dos primeiros membros e do qual resultará a realização, em 1871, das Conferências do Casino. Em 1869, são publicados os primeiros versos do «poeta satânico» Fradique Mendes (de certa forma uma antecipação ao processo de criação heterónima de Fernando Pessoa), na Revolução de Setembro. No mesmo ano, efectuou uma viagem pelo Egipto e pelo canal de Suez, em companhia do conde de Resende, da qual, no ano seguinte e já em Lisboa, publicaria o relato no Diário de Notícias, com o título De Port-Said a Suez. No mesmo ano escreveu, com Ramalho Ortigão, O Mistério da Estrada de Sintra, publicado igualmente no Diário de Notícias (que gerou enorme expectativa junto dos leitores, visto se apresentar como uma intriga policial verdadeira). Entretanto, foi nomeado administrador do concelho de Leiria e, posteriormente, após ter prestado provas que lhe permitiram obter o primeiro lugar, enveredou pela carreira diplomática.Em 1872, foi nomeado cônsul em Cuba, seguindo para Inglaterra, em 1874, e para Paris, em 1888.

Entretanto, em 1871, participou nas Conferências do Casino (cujo programa foi interrompido devido a proibição governamental) com uma intervenção intitulada O Realismo como Nova Expressão da Arte,na qual condenava a teoria da arte pela arte e se integrava num programa de realismo literário reformador da literatura e da vida portuguesas. As Farpas (1871), publicação mensal escrita de novo em parceria com Ramalho Ortigão, ilustra o desejo de levar a cabo uma análise crítica da sociedade portuguesa. Mas é sobretudo a partir das referidas conferências que se articula o projecto de uma colecção de novelas que, sob o título genérico de Cenas Portuguesas, analisasse os vários aspectos da sociedade da época, já segundo os preceitos da arte realista (análise minuciosa, física e psicológica, de pessoas e ambientes). Este projecto concretizou-se, mesmo se não de forma ortodoxa (no que ao realismo literário diz respeito), nos romances O Crime do Padre Amaro (romance inaugurador da nova escola cuja primeira versão foi publicada em 1875, nele se fazendo a análise da vida do clero e da pequena burguesia de província), O Primo Basílio (1878, análise da vida familiar da pequena burguesia lisboeta) e Os Maias (1888, retrato crítico da alta burguesia e da aristocracia de Lisboa). Na mesma linha se integram as obras, publicadas postumamente em 1925, A Capital (escrito em 1878, análise da classe literata), O Conde de Abranhos (escrito em 1878) e Alves & C.ª (escrito, provavelmente, em 1883).

No entanto, Eça de Queirós nunca subjugou a sua personalidade artística à ortodoxia do realismo e do naturalismo. Em obras como O Mandarim (1880) e A Relíquia (1887), colocou ao serviço da sua imaginação e do seu gosto pelo fantástico certos métodos de escrita adquiridos naquela escola. Igualmente, as suas obras mais tardias como A Ilustre Casa de Ramires (1900), A Cidade e as Serras (1901) e Contos (reunidos em 1902), mais do que exemplos do realismo literário, são o reflexo da experiência do desencanto finissecular perante a tecnologia e a civilização urbana, encontrando o escritor a solução, aparentemente, no regresso ao campo, à vida dos simples. As hagiografias (descrições bigráficas de santos) incluídas no volume Últimas Páginas (1912), são sobretudo a encarnação desse desejo de regresso a uma pureza primitiva.

De forma geral, e na sua fase mais realista, Eça dedicou-se sobretudo à análise social (mais que psicológica) de tipos humanos, representantes de certos grupos, vistos com uma ironia mordaz e maliciosa que se constituiu como arma de combate. Ausentes estão os tipos genuinamente populares. Na educação, e na adequação desta ao meio português, são analisadas muitas das causas dos problemas que afectam a mentalidade nacional. A sua forma de tratar estas questões gerou, na altura, grande controvérsia, sendo o escritor alvo de ataques públicos. Igualmente criticado foi o seu estilo, considerado afrancesado, que revolucionou a língua literária portuguesa. De facto, libertando-a de purismos e da oratória, aproveitando com naturalidade a linguagem comum e conseguindo associações inesperadas entre realidades aparentemente desconexas, Eça de Queirós imprimiu um cunho impressionista, condensado e rigoroso, de grande intensidade expressiva, que lhe permitiu, de forma económica, traçar os quadros e tipos observados sem os destituir de uma forte carga poética e sensível.

Tal como a sua actividade de romancista, o papel de Eça de Queirós na análise do mundo seu contemporâneo em folhetins e textos jornalísticos foi fundamental. Foi fundador e director da Revista de Portugal (1889-1892) e colaborador de jornais nacionais e brasileiros. A sua experiência do exílio, o seu espírito crítico, céptico e desencantado perante a época (que se manifestou na sua participação, conjuntamente com outras dez personalidades da época — Carlos Mayer, Guerra Junqueiro, António Cândido, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Carlos Lobo d’Ávila, conde de Sabugosa, conde de Arnoso, marquês de Soveral e conde de Ficalho — nos Vencidos da Vida, «grupo jantante», segundo a própria designação de Eça, entre 1887 e 1893) permitiram-lhe encetar uma análise mordaz da vida portuguesa (mas também europeia), que, apesar de muitas vezes violenta, era o reverso de um amor intenso ao seu país. Fradique Mendes, alter-ego do escritor (Correspondência de Fradique Mendes, 1900), ou o Ega de Os Maias, reflectem muito da sua personalidade e dos seus sentimentos face ao país.

Para além das obras já referidas, Eça de Queirós é ainda o autor de Uma Campanha Alegre (1890-1891), Cartas de Inglaterra (1905), Ecos de Paris (1905), Cartas Familiares e Bilhetes de Paris (1907), Notas Contemporâneas (1909) e O Egipto (1926).

Conhecido, dentro e fora de Portugal, pela sua ironia, fina ou sarcástica, pelo seu comprazimento no retrato caricatural ou grotesto, pela mestria da sua arte narrativa, é tido por muitos como um dos maiores prosadores da literatura portuguesa.

Carlos da Maia

Queirós, José Maria Eça de (Os Maias)

Carlos da Maia é a personagem central do romance Os Maias, de Eça de Queirós. É um aristocrata belo, culto, rico, ocioso e diletante, na sua dispersão de ocupações e de gostos. Filho de Maria Monforte e de Pedro da Maia, é educado pelo avô, Afonso, após a fuga da mãe com um italiano e o suicídio do pai. Passa a infância na Quinta de Santa Olávia, no Douro, com o avô, que lhe dá como preceptor o inglês Brown. Este é partidário de uma educação que dá primazia ao desenvolvimento e equilíbrio físicos e à aprendizagem de línguas vivas em substuição do latim. Esta educação difere profundamente da educação tradicional portuguesa, que utilizava como método a memorização e aprendizagem da cartilha.

Carlos vai estudar para Coimbra, onde se forma em Medicina e conhece o seu amigo e confidente João da Ega. Já formado, faz uma viagem pela Europa, percurso natural de um jovem rico. Uma vez em Lisboa, esforça-se para fazer do Ramalhete uma residência de luxo. É um homem dominado pelo dandismo e os seus projectos de trabalho nunca se concretizam, deixando-se envolver pela inactividade e pela ociosidade. Sonha ser um cientista e, ao mesmo tempo, um homem de classe e de gosto.

As duas circunstâncias marcantes na vida de Carlos são a sua vida ociosa em Lisboa e a sua inserção no estrato social mais destacado do Portugal da Regeneração, vivendo em contacto com políticos, financeiros, diplomatas e aristocratas. O seu amigo João da Ega apresenta-o aos Gouvarinhos, e não tarda que Carlos tenha uma aventura de curta duração com a condessa de Gouvarinho. As desilusões de amor levam-no a considerar-se «um ressequido, um impotente de sentimento como Satanás… pedante… um D. Juan… um devasso… com uma pontinha de romantismo» e a afirmar que «Passo a vida a ver as paixões falharem-me».

O encontro fortuito com Maria Eduarda no peristilo do Hotel Central marca profundamente a sua vida. Carlos apaixona-se por esta, conhecida por Madame Castro Gomes, que um brasileiro trouxera de Paris até Lisboa. A sua relação estreita-se de tal forma que Carlos lhe compra uma casa, a Toca, onde se encontram assiduamente. A sua paixão leva-os a projectar o casamento. Mais tarde, Carlos vem a descobrir que Maria Eduarda é sua irmã. A prática do incesto, consciente por parte de Carlos, leva à morte do seu avô, Afonso da Maia.

Apesar da educação «à inglesa» que recebeu, a vida pessoal e profissional de Carlos constitui um falhanço. Falha, em parte, devido ao meio em que se instalou, sociedade ociosa e fútil, e, em parte, devido a aspectos hereditários — a fraqueza do pai, a futilidade da mãe. No final do romance afirma-se partidário do «fatalismo muçulmano», ou seja, de «nada desejar e nada recear… Não se abandonar a uma esperança, nem a um desapontamento».

João da Ega

Queirós, José Maria Eça de (Os Maias)

João da Ega é uma personagem do romance Os Maias, de Eça de Queirós, amigo e confidente de Carlos da Maia. Era filho de uma viúva rica e beata, de Celorico de Basto, e o seu espírito sacrílego escandalizava e chocava esse pequeno meio. Era conhecido em Celorico e em Coimbra, onde levava uma vida de boémia estudantil, «como o maior ateu, o maior demagogo que jamais aparecera nas sociedades humanas». Impressionava tudo e todos com as suas atitudes e concepções, arrojadas e revolucionárias, comprazendo-se nos efeitos que a sua retórica provoca. As suas opiniões apresentavam-se de uma forma irreverente e contestária, por vezes incoerentemente e com a intenção de escandalizar a burguesia lisboeta dos círculos que frequentava. Constantemente, proferia blagues que nem os outros, nem ele mesmo tomavam a sério. Assim, afirmava-se partidário da escravatura e adversário de uma intervenção da mulher na área intelectual.

Considerava que, para salvar Portugal, restava apenas a via revolucionária, ou, caso esta falhasse, a redução do país a uma província espanhola. Numa visão iconoclasta, afirmava que a salvação nacional passaria por uma invasão espanhola que acabasse com as classes dominantes e possibilitasse o recomeço do zero com novas energias. Viveu uma grande paixão por Raquel Cohen, mulher do director do Banco Nacional. Na soirée dos Cohen, Ega apareceu disfarçado de Mefistófeles, acabando por ser expulso pelo marido de Raquel. Desiludido, retirou-se para Celorico, com a intenção de escrever O Lodaçal, para se vingar de Cohen.

Ega é um literato falhado. Apesar dos vários projectos que se propõe levar a cabo, nunca chega, de facto, a concretizar nenhum. Tenciona escrever as Memórias de Um Átomo, história das grandes fases da Humanidade e do Universo, que nunca realiza. Nas últimas páginas do romance ainda refere um novo livro, as Jornadas da Ásia, acabando, mais uma vez, por nada produzir. É um literato ousado, fantasioso e com verve, nunca chegando a concretizar os seus planos de autor. Partidário do naturalismo e do realismo, envolve-se numa discussão com Alencar, protótipo do poeta do ultra-romantismo, no jantar do Hotel Central, mas no final do romance acaba por «apreciá-lo imensamente» e por o considerar um português genuíno.

Ega desempenha um papel importante na intriga, pois é a ele que Guimarães entrega o cofre que revela o parentesco entre Carlos e Maria Eduarda. Terminada esta relação incestuosa, Ega e Carlos planeiam uma longa viagem, que os levaria aos grandes centros das civilizações antigas e modernas, acabando por visitar a América do Norte e o Japão. Passado ano e meio, Ega reaparece no Chiado.

Ega é uma personagem ricamente caracterizada, em todas as suas contradições. É herético e revolucionário, mas também um dândi e um cínico. É considerado por vezes, em muitos aspectos, como um retrato irónico do próprio Eça. Personifica, ao longo do romance, uma certa postura revolucionária da época, manifestada de forma mais consistente na Geração de 70. Apesar de todos os seus grandes planos de transformação social, numa retórica de tom profético e inflamado, apesar de defensor das correntes artísticas e científicas mais modernas, como o realismo e o positivismo, acaba por não levar a cabo qualquer projecto verdadeiramente significativo, perdendo-se nas suas aventuras românticas, numa vida diletante e ociosa.


Ramalho Ortigão e Eça de Queirós. Os dois foram autores da publicação As Farpas.

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O Casino Lisbonense, em Lisboa. Nele tiveram lugar, em 1871, as Conferências do Casino, organizadas pelo grupo da Geração de 70.

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Caricatura de Eça de Queirós feita por Bordalo Pinheiro.

EÇA DE QUEIROZ, Os Grandes Portugueses

Posted in EÇA DE QUEIROZ, IMAGENS, OS MAIAS on 28 de Abril de 2008 by os.maias

A escrita de Eça de Queirós modernizou a literatura portuguesa. Dono de uma língua feroz e um humor cáustico, escreveu romances fundamentais como “Os Maias” e “O Crime do Padre Amaro”. Foi um observador atento da sociedade do século XIX e, com a força das palavras, lutou contra a ferrugem nacional. Viveu durante anos fora do País, o que lhe aprimorou a inabalável lucidez. Morreu em Paris. A sua obra está traduzida numa vintena de línguas. Eça de Queirós foi um génio da literatura, ao nível “de um Charles Dickens ou de um Émile Zola”, diz o professor universitário José Miguel Sardica.

– Contrair Conteúdo

Eça de Queirós era – ainda é – um antídoto contra o tédio. No meio de tanta literatura soturna do seu tempo, a sua escrita era um refresco. Os textos de Eça criaram o português moderno A sua obra revelou uma capacidade de análise e distanciamento notáveis. É importante para o entendimento da sociedade, hábitos e costumes do século XIX.

Acutilante nas críticas à sociedade e certeiro na descrição do pântano em que Portugal vivia na altura, Eça de Queirós foi um dos maiores pensadores do seu tempo. Cáustico, desencantava os mais ácidos argumentos para descrever a sociedade do seu tempo.

Foi um escritor realista, mas também um revolucionário e anarquista. Considerava que a literatura era uma forma de intervenção. A médica Isabel do Carmo lembra que o autor tinha “um carácter social e político muitas vezes esquecido”.

José Maria Eça de Queirós nasceu em 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim. Era filho natural do juiz José Maria de Almeida e oficialmente de mãe desconhecida. Foi criado por uma ama até à morte desta. O pai tinha, entretanto, casado com Carolina Pereira d’Eça de Queirós, que não queria saber do jovem. Foi viver com os avós paternos em Verdemilho, perto de Aveiro. Em 1855, foi para o Porto, onde residia o pai, mas a madrasta – já que senhora Eça de Queirós não se reconhecia oficialmente como sua mãe – continuava a não querer vê-lo. Foi, por isso, internado num colégio. Segundo o historiador José Hermano Saraiva, Eça de Queirós “foi criado na amargura de nunca ter tido uma família”. Com 16 anos partiu para Coimbra para cursar direito. No meio do ambiente boémio, que sempre caracterizou a cidade do Mondego, fez amizade com Antero de Quental e outros jovens intelectuais. Foi o início da Geração de 70, grupo que se afirmou pelo desejo de intervenção e renovação da vida política e cultural portuguesa.

Eça fez o primeiro contacto com a literatura através do teatro. Participou, como actor, no Teatro Académico da Universidade de Coimbra. Os seus primeiros escritos datam dessa época. Trata-se de crónicas jornalísticas que foram publicadas como folhetim na revista “Gazeta de Portugal”.

Eça veio para Lisboa em 1866, onde começou a trabalhar como advogado. Uma carreira marcada pelo insucesso, ao contrário da escrita, que corria cada vez melhor. O nome de Eça de Queirós ganhava notoriedade. Mudou-se para Évora, onde fundou o semanário “O Distrito de Évora”. Abriu, igualmente, um escritório de advogados, mas não teve melhor sorte do que em Lisboa.

Em 1869 viajou ao Egipto, onde assistiu à inauguração do Canal do Suez. Esta viagem inspiraria algumas das suas obras, como o “Mistério da Estrada de Sintra” e “A Relíquia”. No regresso a Lisboa, publicou as crónicas da viagem no “Diário de Notícias”. Foi enviado para Leiria como administrador municipal. Esta colocação permitiu-lhe observar uma realidade que deu origem a “O Crime do Padre Amaro”, primeiro romance realista português. Um retrato humano e social do País, fruto “da capacidade de Eça para desmontar as convenções morais”, explica José Miguel Sardica.

Durante a sua estadia em Leiria, prestou provas para a carreira diplomática, no Ministérios dos Negócios Estrangeiros. Iniciou, com Ramalho Ortigão, a publicação periódica de “As Farpas”, que, para José Miguel Sardica, “é só o melhor jornalismo alguma vez escrito em Portugal”. A colaboração com esta publicação terminou em 1872, quando foi nomeado para o lugar de cônsul de Portugal em Havana. Durante a estadia em Cuba, a veia revolucionária de Eça veio ao de cima. Encarregou-se da defesa dos emigrados macaenses que trabalhavam nas grandes plantações. Para o cônsul português, aquela situação era escravatura dissimulada. Passados seis meses, foi transferido para Newcastle, Reino Unido. Eça de Queirós nunca se deixou acomodar na rotina traiçoeira. Aparentemente, passou os anos mais produtivos de sua vida em Inglaterra. Foi lá que escreveu alguns dos seus trabalhos mais importantes, incluindo “A Tragédia da Rua das Flores” e “Os Maias”.

Eça de Queirós passou muitos anos no estrangeiro, o que nunca o impediu de escrever romances que, para Francisco Sarsfield Cabral, director de informação da Rádio Renascença, “são retratos da sociedade ainda hoje actuais”. A distância tornou possível a reflexão lúcida que Eça fez sobre Portugal.

Casou-se em 1886 com Emília de Castro, filha do conde de Resende. Seguiu-se um novo posto consular em Paris. Passados três anos, regressou a Lisboa. Juntou-se, pela primeira vez, aos jantares dos “Vencidos da Vida”, tertúlias que contavam com a participação de Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins e representavam a crescente incapacidade dos homens da Geração de 70 para mudar a vida política portuguesa.

Eça de Queirós acabou por adoecer e partiu, a conselho de especialistas, de Paris para a para a Riviera francesa, e depois para os Alpes suíços. Tinha esperança que novos ares lhe fizessem bem. Faleceu em 16 de Agosto de 1900, na sua casa na capital francesa.

Eça de Queirós foi um espantoso escritor que apanhou, como ninguém, o carácter de uma nação. Apreendeu a nossa maneira de ser e criticou-nos com palavras tão belas que faziam esquecer a ironia e crueldade. Foi, também por isto, uma fera indomável do seu tempo. O nome de Eça de Queirós tornou-se num adjectivo. Haver um adjectivo – queirosiano – prova toda a sua importância.

OS MIAUS [Adaptação livre de “Os Maias” de Eça de Queirós]

Posted in BOOK, EÇA DE QUEIROZ, OS MAIAS on 28 de Abril de 2008 by os.maias


ENCOMENDAR
Os Miaus
Cristiana Resina, Sara Rodrigues
Colecção: Clássicos a Brincar
Nº págs.: 80
ISBN: 978-972-41-5079-6
Preço: 12,00 € (com IVA 5%)
Primeiro título de uma nova colecção, que reunirá adaptações livres, para os pequenos leitores (a partir dos 8 anos), dos clássicos da literatura portuguesa. O objectivo é proporcionar-lhes um primeiro contacto com algumas das obras fundamentais da nossa literatura – que eles irão mais tarde ter de ler e estudar na escola –, de forma a criar alguma familiaridade com as mesmas e facilitar a sua abordagem numa fase posterior.

OS MIAUS [Adaptação livre de “Os Maias” de Eça de Queirós]
Corria o ano de 1875. Os homens usavam cartolas e bengalas, as senhoras corpetes e saias de balão, e os gatos… Bem, os gatos também usavam tudo isto! Pelo menos, na nossa história.
A célebre família dos Maias ganha pêlo, bigodes e garras afiadas, e transforma-se na família dos Miaus, gatos com história e histórias para contar, não muito diferentes das vividas pelos personagens de Eça de Queirós, mas agora contadas às crianças, de forma simples e divertida. Naquela que será uma primeira abordagem aos clássicos portugueses, que mais tarde farão parte do conteúdo programático escolar, o que se espera de “Os Miaus” é que promovam a leitura e ensinem, brincando. E não é esta a melhor forma de aprender?

OS MAIAS, DOC

Posted in DOC, Download, OS MAIAS on 28 de Abril de 2008 by os.maias
Ficha de Trabalho – Os Maias (Alencar e M. Monforte) 2003-10-22 35,50 KB [Download]
Ficha de Trabalho – Os Maias (Hotel Central) 2003-10-22 41,00 KB [Download]
Ficha de Trabalho – Os Maias 2003-10-21 41,00 KB [Download]

Eça olhando para sua musa (BLOG DE MIGUEL FALABELLA)

Posted in EÇA DE QUEIROZ, IMAGENS, OS MAIAS, OS MAIAS IMAGENS on 28 de Abril de 2008 by os.maias

Escrito em:9/12/2007

AINDA PORTUGAL QUE COMPREENDE-SE NA SAUDADE.

Começo por agradecer aos comentários e às palavras que me chegaram. É sempre muito bom perceber que o pensamento encontra eco e abrigo em outras moradas que não a sua. Prometi terminar o relato sobre Portugal e cumpro o prometido, antes que me chamem de mentiroso. Para o André, que me pediu uma dica sobre cursos de teatro aqui no Rio, acho que a CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) ainda é o melhor endereço, mas é preciso informar-se melhor, porque eu estou meio desatualizado quanto aos cursos que a cidade oferece.
Saindo do hotel, na Praça Camões e virando à direita na rua do Alecrim, em direção ao Cais do Sodré, num pequeno jardim intocado pelo tempo, encontra-se a estátua de Eça de Queirós, um dos maiores romancistas de todos os tempos, na minha opinião, e que, com uma pena afiada e precisão cirúrgica, vasculhou o avesso da sociedade lisboeta de seu tempo, criando personagens inesquecíveis e deliciosos. Eça tinha humor como ninguém e um mergulho na aventura de seu universo literário traz sempre um sorriso nos lábios, de puro deleite.

Aí está, o grande Eça olhando para sua musa, acredito eu, aquela que sussurrou em seus ouvidos a urgência de juntar as palavras para que seus iguais pudessem ver-se um pouco mais além dos próprios umbigos.
É preciso que se diga que herdamos de Portugal muito mais do que a língua e os paladares. Herdamos também a violenta falta de auto-estima que faz com que cuspamos não só na própria imagem, mas também em qualquer outra que nos dimensione a pequenez . Eça, a exemplo de Saramago, dia desses ainda, foi duramente atacado por alguns de seus pares, porque expunha os intestinos de uma sociedade que vivia de aparências e falsos valores. Eça reagia. Reproduzo, a seguir, uma carta que Eça de Queirós escreveu a Fialho de Almeida que tinha destroçado o romance “ Os Maias“ numa crítica para jornal onde escrevia.

Carta de Eça de Queirós para Fialho de Almeida

“Os franceses falam muito do espalhafato que faz Satanás, quando o mergulham dans un bénitier. Eu nunca assisti a esta escandalosa afronta feita ao venerável pai da mentira; nem você também, suponho eu. No entanto imagina você bem como Belzebu berrará e escoucinhará, ao sentir o contato untuoso do detestado líquido. Pois, querido amigo, assim eu escoucinhei e berrei, enquanto você, com mão dura e forte, me estava mergulhando na água benta da sua crônica sobre “Os Maias”.
Você concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito, represento para você sa-tanás, o pai de toda a falsidade. Eu sou aquele mafarrico que escolhe, para personagens do seu livro, não sei que janotas petulantes e estrangeirados, em vez de dar, nessas pági-nas, o lugar preeminente ao Marquês da Foz, aos empreiteiros das obras do porto de Lisboa, aos rapazes beneméritos que foram premiados na escola; aos construtores do bairro Estefánia, ao Conselho de Estado, etc. etc. Eu sou aquele porco sujo que pretende que as mulheres de Lisboa têm amantes, e que, nos jantares de sociedade, em vez de discutirem Hegel, o positivismo, e a psicologia (sic) das religiões, falam de criadas e de cabeleireiros! Eu sou aquele gênio da maledicência, que afirma que os esplendores da Avenida são talvez inferiores aos da Via-Ápia, e que a sociedade que a freqüenta não é talvez nem a mais culta nem a mais original do universo, etc., etc., por aí além.

Por outro lado a sua crônica, meu caro Fialho, é uma bela pia de mármore, cheia a trasbordar de água benta da virtude, do Patriotismo, e da fé em Lisboa como capital da civilização. E, portanto, o que você fez, com a sua costumada veemência, foi plonger le diable dans un bénitier. Daí os berros e os couces.

Couces e berros, sobretudo de espanto. Porque enfim, eu tudo podia esperar do seu espírito, tão impressionável e ardente, menos essa atitude de pudicícia ofendida e de magoado patriotismo. O que era com efeito de esperar, dada a sua índole e os seus escritos, era que você criticasse o livreco, sob o ponto de vista do próprio livreco; e que, como legionário da mesma legião, ocupado também neste belo trabalho da literatura contemporânea, que consiste em fazer o inquérito experimental das sociedades, me cen-surasse só por os meus golpes não serem bem destros, nem bem certeiros, nem bem úteis, nem bem claros, nem bem eficazes. Mas vê-lo de repente surgir no campo inimigo, com uma sobrecasaca séria de conselheiro de Estado, gritando — “Em Lisboa não se deve tocar! Tudo aqui é puro, belo, e grande! Vergonha ao maldizente que ouse rir da cidade incomparável, perfectissima Urbs!” — eis o que verdadeiramente me assombrou! Por que tão singular mudança? Ó Fialho, foi você eleito diretor-geral de um Banco? É você o inspirador de um sindicato? Recebeu você, das mãos do monarca, a grã-cruz de São Tiago? Esta você diretor-geral de uma grande repartição do Estado? Que interesse supremo o fez aliar-se ao Conselheiro Acácio? Está você, por acaso, apaixonado pela mulher de Acácio, e finge-se assim pudico, ordeiro e patriota, para lisonjear o benemérito e cornudo homem… Sapristi, je crois que j’ai touché juste! Nessa sua crônica sobre “Os Maias”, Fialho, há uma mulher!! Se assim é, (e estou certo que é assim) como você deve ter sofrido, pobre amigo! Conheço essa situação, é medonha!… É ela ao menos bonita, e cochonne?

Sério, sério — a sua crônica, escrita com a sua costumada verve, espantou-me. Que você fizesse ao calhamaço um enterrement de primeira classe, bem está! O grosso cartapácio, com mil bombas, fervilha de defeitos! As duas próprias cenas que você incondicionalmente louva, estão bem longe de me agradar! Mas que você fizesse a vista grossa sobre esses defeitos, para se lançar sobre mim com indizível fúria e acusar-me de falta de respeito pelas nossas virtudes, pela nossa elevação moral, pela grandeza da nos-sa civilização, e pelo esplendor de Lisboa como capital — é forte! Cousa espantosa ver o meu velho e rebelde Fialho repetir, quase ipsis verbis, um grande rasgo patriótico do Tomás Ribeiro, há anos, nas Câmaras, declarando “traidores os que faziam, em escritos públicos, a crítica dos nossos costumes”! O Ramalho fez, sobre essa saída do lírico da Judia, um artigo extraordinário nas Farpas.

Esta carta já vai longa. E não me alargo por isso mais, além deste ponto de vista da sua crônica, — que foi o que me impressionou. Havia, porém, nela, ainda outros detalhes, que eu desejaria discutir com você, violentamente. Assim, diz você que os meus perso-nagens são copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, numa obra que pretende ser a reprodução de uma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e sem saliências, (como a nossa incontestavelmente é) — como queria você, a menos que eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivessem o destaque, a dessemelhança, a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade, que podem ter, e têm, os tipos de uma vigorosa civilização como a de Paris ou de Londres? Você distingue os homens de Lisboa uns dos outros? Você, nos rapazes do Chiado, acha outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do nariz? Em Portugal há só um homem — que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mola de caráter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto, sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.

Outra cousa bem singular é você duvidar da exatidão de certos detalhes, traços de sociedade, como as senhoras falando de criadas ou apostando dez tostõezinhos nas corri-das, etc. Oh homem de Deus, onde habita você? Em Lisboa ou em Pequim? Tudo isso é visto, notado em flagrante, e por mim mesmo aturado sur place!

Mas não palremos mais. Vocês, em todo o caso, hão de findar por me fazer zangar. O Carlos Valbom acusa-me de escrever à francesa, e com galicismo que o arrepiam; e diz isto em períodos absolutamente construídos à francesa, e metendo em cada dez palavras cinco galicismos! Você, por outro lado, nunca tomou a pena, que não fosse para cair sobre os homens e as cousas do seu tempo, com um vigor, uma veia, um espírito, um éclat que fazem sempre a minha delícia. E quando eu faço o mesmo, com mais moderação, infinitas cautelas, et une touche très juste — você aparece-me, e grita, “aqui del-rei patriotas!” É escandaloso. Para vocês tudo é permitido: galicismos à farta, pilhérias à pátria, à bouche que veux-tu? A mim, nada me é permitido! Ora sebo!

Positivamente, basta de cavaqueira.

Diga ao Oliveira Martins que eu lhe mando, por este correio, mais fradiquice. E você, caro Fialho creia sempre na sincera estima e verdadeira admiração, com que lhe aperta a mão o seu muito amigo

Bristol, 8 de agosto de 1888.
Eça de Queirós”

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