TESTE FORMATIVO (OS MAIAS DE EÇA QUEIROZ)

TESTE FORMATIVO

Entravam então no perestilo do Hotel Central—e nesse momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta.

Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou‑lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escocesa, de pêlos esguedelhados, finos como seda e cor de prata; depois, apeando‑se, indolente e poseur, ofereceu a mão a uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram‑se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas. O rapaz ao lado, esticado num fato de xadrezinho inglês, abria negligentemente um telegrama; o preto seguia com a cadelinha nos braços. E no silêncio a voz de Craft murmurou:

—Très chic.

Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divã de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastrão azul‑celeste. O Craft conhecia‑o; Ega apresentou a Carlos o sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermute, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absinto…

Fora um dia de Inverno suave e luminoso, as duas janelas estavam ainda abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, numa paz elísia, com nuvenzinhas muito altas, paradas, tocadas de cor‑de‑rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam afogando num vapor aveludado, do tom de violeta; a água jazia lisa e luzidia como uma bela chapa de aço novo; e aqui e além, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastreações imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce…

—Vimos agora lá em baixo—disse Craft indo sentar‑se no divã—uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinha griffon, e servida por um esplêndido preto!

O sr. Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos, acudiu:

—Bem sei! Os Castro Gomes… Conheço‑os muito… Vim com eles de Bordéus… Uma gente muito chique que vive em Paris.

Carlos voltou‑se, reparou mais nele, perguntou‑lhe, afável e interessando‑se:

—O sr. Salcede chegou agora de Bordéus?

Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu‑se imediatamente, aproximou‑se do Maia, banhado num sorriso:

—Vim aqui há quinze dias, no “Orenoque”. Vim de Paris…Que eu em podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci‑a a bordo. Mas estávamos todos no Hotel de Nantes. Gente muito chique: criado de quarto, governanta inglesa para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas… Chique a valer! Parece incrível, uns brasileiros…Que ela na voz não tem sotaque nenhum, fala como nós. Ele sim, ele muito sotaque… Mas elegante também, Vossa Excelência não lhe pareceu?

—Vermute?—perguntou‑lhe o criado, oferecendo a salva.

—Sim, uma gotinha para o apetite. Vossa Excelência não toma, sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro… Eu, em não indo lá todos os anos, acredite Vossa Excelência, até começo a andar doente. Aquele boulevarzinho, hem!… Ai, eu gozo aquilo!… E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo… Tenho até um tio em Paris.

—E que tio!—exclamou Ega, aproximando‑se.—Íntimo de Gambetta, governa a França… O tio do Dâmaso governa a França, menino!

Dâmaso, escarlate, estoirava de gozo.

—Ah, lá isso influência tem. Íntimo do Gambetta, tratam‑se por tu. Até vivem quase juntos… E não é só com o Gambetta; é com o Mac‑Mahon, com o Rochefort, com o outro que me esquece agora o nome, com todos os republicanos, enfim!… É tudo quanto ele queira. Vossa Excelência não o conhece? É um homem de barbas brancas… Era irmão de minha mãe, chama‑se Guimarães. Mas em Paris chamam‑lhe Mr. de Guimaran…

EA DE QUEIRÓS, Os Maias

QUESTIONÁRIO:

1. Indique o assunto do texto e mostre que o seu desenvolvimento em partes lógicas corresponde à focalização sucessiva de espaços diferentes.

2. “O sr. Salcede chegou agora de Bordéus?’’ Esta pergunta de Carlos não lhe parece ter como fim o mudar o ramo à conversa? Em que medida é que este facto é abonatório da elegância de maneiras de Carlos?

3. Há aqui a introdução de duas personagens de Os Maias: Maria Eduarda e Dâmaso Salcede. Segundo a técnica do romance da época, o narrador apresenta as personagens traçando o seu retrato.

3. 1. Estes dois retratos (caracterizações directas) estão entre si numa relação de semelhança ou de contraste? Justifique a resposta.

3. 2. Mostre que a caracterização directa de Dâmaso é confirmada, ainda no texto, por muitos pormenores de caracterização indirecta.

3.3. Há também no texto a descrição sugestiva de uma paisagem. Segundo os cânones realistas, a paisagem condicionava as personagens (para os românticos era o inverso). A paisagem descrita surge como enquadramento condicionante de Maria Eduarda ou de Dâmaso? Justifique a resposta.

4. Com base no texto, ponha em evidência a linguagem e os recursos estilísticos mais marcantes de Eça.

RESPOSTAS:

1. Assunto do texto: a entrada de Carlos e Cratt no Hotel Central, observando estes a chegada dos Castro Gomes; o pequeno retrato de Dâmaso Salcede e a sua apresentação por Ega a Carlos, já no interior do hotel uma descrição da paisagem exterior observada das duas janelas do gabinete; a conversa dos três amigos com Dâmaso, que fala muito dos Castro Gomes e mais ainda de si.

Pode o texto considerar‑se dividido em quatro partes lógicas.A primeira corresponde à focalização da entrada do hotel: quando Carlos e Craft estavam para entrar, chegam Castro Gomes e a sua linda mulher, que é descrita em si e na sua “entourage”. A segunda parte foca já outro espaço, “Em cima, no gabinete…” e nela se dão alguns traços da personagem Dâmaso, que é apresentado por Ega aos outros amigos. Na terceira parte, há uma bela descrição do espaço exterior descortinado das duas janelas do gabinete. Finalmente, na quarta parte, em que se foca de novo o gabinete, desenrola‑se a conversa entre os três amigos e Dâmaso, que fala ainda mais de si do que dos Castro Gomes.

2. A pergunta referida tem realmente a finalidade de mudar o rumo à conversa. Note que ela é posta depois de Dâmaso ter afirmado que tinha vindo com os Castro Gomes de Bordéus. Carlos desejaria que se falasse de Dâmaso e não dos outros que não estavam presentes. Carlos revela, pois, a elegância moral de pretender evitar mexeriquices.

3.1. Os dois retratos estão entre si numa relação de contraste. Com efeito, a senhora Castro Gomes (Maria Eduarda) é‑nos caracterizada como uma senhora de alta distinção “alta”, “loira”, esplendorosa na “sua carnação ebúrnea”, “com um passo de deusa’’, “maravilhosamente bem feita”, “deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar”, com “um casaco colante de veludo branco’’ e brilhando com “o verniz das suas botinas”. Há em toda esta descrição a distinção e o aprumo harmonioso da mulher clássica. Há, ainda, toda uma “entourage” de harmonia com a elegância da senhora: “um esplêndido preto”, “um rapaz muito magro, de barba muito negra”. “indolente e poseur”, “uma deliciosa cadelinha escocesa”. Toda esta distinção foi sintetizada assim por Craft (e todos reconheciam em Craft um gosto requintado): “Très chic”.

Ao contrário, Dâmaso é‑nos apresentado como um homem gordo e baixo, de maus gostos, fazendo a figura de novo rico: “um rapaz baixote (notar o diminutivo depreciativo), gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastrão azul‑celeste” (apresentação ridícula). Como veremos na resposta seguinte, estas características verificar‑se‑ão a seguir, na caracterização indirecta.

Porquê este contraste entre a distinção de Maria Eduarda e a corriqueirice de Dâmaso? É que a primeira estava destinada a ser personagem da tragédia (as personagens da tragédia clássica são sempre nobres) e o segundo estava marcado pelo autor para figurante da crítica de costumes, isto é, da comédia da vida.

3.2. Como vimos, Dâmaso surge no pequeno retrato como uma personagem ridícula, quer no físico, quer na maneira pretensiosa de vestir. E isto que se verifica na caracterização indirecta. É isto que ele próprio revela, no seu comportamento e na sua linguagem. Vejamos: Dâmaso, movido certamente por um complexo de inferioridade, faz tudo por se elevar ao nível de Carlos, procurando atrair, a propósito e a despropósito, a sua benevolência e admiração: “O senhor Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos…” E quando Carlos lhe perguntou: “O senhor Salcede chegou agora de Bordéus?”, “Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu‑se imediatamente, aproximou‑se do Maia, banhado num sorriso”, Dâmaso surge ainda estupidamente gabarola, não sendo sequer capaz de se aperceber da ironia das intervenções de Ega . Assim, declara‑se sabedor da vida dos Castro Gomes (“Conheço‑os muito… Esta gente conheci‑a em Bordéus’’), gaba‑se de ter um tio em Paris (“tenho até um tio em Paris”) e quando Ega interveio ironicamente (“e que tio!… O tio de Dâmaso governa a França, menino!), esta personagem nem sequer suspeita da ironia de Ega, pelo contrário, “Dâmaso, escarlate, estoirava de gozo”. Revela‑se ainda com a mania do chique (“uma gente muito chique… chique a valer!”). É também caricata a forma como Dâmaso explica a maneira como conheceu os Castro Gomes: “Esta gente conheci‑a em Bordéus. Isto é, verdadeiramente conheci-a a bordo’’). Ridículos também os seus critérios para avaliar do chiquismo: “criado de quarto, governanta inglesa, femme de chambre, mais de vinte malas…”À pergunta se queria vermute, veja‑se o ridículo da resposta: “Sim, uma gotinha para o apetite’’. Caricata, também, a forma como enaltece Paris: “Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro… Aquele boulevarzinho, hem! Ai, eu gozo aquilo… E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo…’’

Dâmaso é, portanto, uma personagem plana, uma caricatura, um tipo social: o novo rico.

3.3. Aparentemente sem vir a propósito, aparece a descrição impressionista da paisagem observada das duas janelas, ao entardecer. Mas é a seguir a esta descrição da paisagem, em que até os barcos dormiam, cedendo ao afago do clima doce, que Craft desabafa: “Vimos agora ali em baixo uma esplêndida mulher…’’ A paisagem surge portanto como enquadramento dessa linda mulher, de perfil clássico. Note‑se que a paisagem tranquila, de uma paz elísia, com várias sugestões cromáticas (cor‑de‑rosa, tom de violeta, a água como uma bela chapa de aço novo) é também ela clássica, apontando mais para o locus amoenus dos clássicos do que para o locus horrendus dos românticos.

4. A linguagem do texto é constituída por um vocabulário simples (com excepção dos estrangeirismos, como “coupé’’, “griffon’’, “poseur’’, “femme de chambre’’, caracterizantes de uma certa mania da época), mas enriquecida e elevada ao nível literário pela expressividade que ganha no contexto. Os adjectivos mais usuais, os verbos mais vulgares, os advérbios mais comuns surgem‑nos com as conotações mais imprevistas.

Veja‑se, por exemplo, o quanto há de imprevisto nos verbos estacar (“um coupé da companhia veio estacar à porta’’), despregar (Dâmaso não despregava os olhos de Carlos), esticar (“o rapaz esticado num fato de xadrezinho”), acudir (“Dâmaso acudiu logo”—acudiu com o sentido de respondeu) banhar (“Dâmaso… banhado num sorriso’’—note‑se o exagero caricato), pilhar (“Que eu, em podendo é lá que me pilham”—pilhar, no sentido de apanhar, caracteriza a linguagem burlesca de Dâmaso), estoirar (“Dâmaso estoirava de gozo…”—exagero cómico). Como se vê, estes e outros verbos são admiravelmente escolhidos por Eça para dar o burlesco, o caricato de personagens tipos, ou caricaturas.

Mas a adjectivação expressiva, já estudada em Garrett, é o maior trunfo estilístico de Eça. Atente‑se nas seguintes expressões colhidas do texto: “uma esplêndida cadelinha, uma esplêndida mulher e um esplêndido preto” (o adjectivo esplêndido, aplicando‑se também à cadelinha e ao preto, tem a função de realçar o encanto da senhora, que se projectava na sua entourage); “deliciosa cadelinha escocesa’’(note-se o duplo adjectivo, um antes e outro depois do substantivo, o primeiro subjectivo e o segundo objectivo); “pêlos esguedelhados’’; “apeando‑se indolente e poseur (valor adverbial dos adjectivos); “uma senhora alta e loira’’; requinte literário e satânico”; “Inverno suave e luminoso’’ (dupla adjectivação em que um dos adjectivos designa uma nota física e outro, psicológica); “carnação ebúrnea’’ (adjectivo erudito a conotar uma elegância clássica); “passo soberano de deusa’’; “rapaz baixote (diminutivo irónico), gordo, frisado’’ (tripla adjectivação de conotações caricatas); “céu largo”; “uma luz elísia”; “nuvenzinhas altas, paradas e tocadas de cor‑de‑rosa “ ( note a expressividade de tocadas’’); “vapor aveludado” (adjectivo metafórico); “água lisa e luzidia’’, grossos navios”; “largos paquetes estrangeiros’’, “ao afago de um clima doce’’, “perguntou‑lhe afável e interessado’’ (dupla adjectivação de valor adverbial).

Eça tira também partido de uma palavra larga como o advérbio de modo, que serve não apenas a expressividade da frase, mas também o seu ritmo: “maravilhosamente bem feita” (hiperbolização da beleza); “o rapaz abria negligentemente um telegrama” (o facto de a negligência se referir à abertura do telegrama, que sempre se abre depressa, o “negligentemente” projecta sobre o rapaz um ar de calma e importância).

Em conclusão: o verbo, o adjectivo e o advérbio dão à linguagem de Eça uma visualidade, um impressionismo surpreendente e, por isso, cativante.

A frequência do imperfeito verbal e do gerúndio (aspecto durativo) aumentam ainda esse carácter de visualidade e de impressionismo, sempre presente na maravilhosa prosa de Eça: “dois couraçados ingleses dormiam… cedendo ao afago do clima doce…”

A frequente animização da paisagem (personificação ou prosopopeia) é também uma das causas do impressionismo desta prosa; “a tarde morria numa paz elísia”; “os longes da outra banda já se iam afogando num vapor aveludado’’; “longos paquetes estrangeiros… dormiam… como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce…”. Estes efeitos ao nível semântico das palavras ressaltam mais numa prosa como a de Eça, que se movimenta em períodos curtos, libertos da complicada ordem inversa das palavras, tão do gosto dos clássicos.




[1] In António Borregana, O texto em Análise, 1984, Edição do autor, pág. 93 e seg.s

TESTE FORMATIVO[1]

Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de negro, que fumava encostado à outra ombreira, numa pose de tédio—vendo o violento interesse de Pedro, o olhar aceso e perturbado com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veio tomar‑lhe o braço, murmurou‑lhe junto à face na sua voz grossa e lenta:

—Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os feitos principais? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar, uma garrafa de champanhe?

Veio o champanhe. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos anéis da cabeleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e dando um puxão aos punhos:

—Por uma doirada tarde de Outono…

—André—gritou Pedro ao criado, martelando o mármore da mesa— retira o champanhe!

O Alencar bradou, imitando o actor Epifànio:

—O quê! Sem saciar a avidez do meu lábio?…

Pois bem, o champanhe ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o poeta das “Vozes de Aurora’’, explicaria aquela gente da caleche azul numa linguagem cristã e prática!…

—Aí vai, meu Pedro, aí vai!

Havia dois anos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquele velho, o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela sociedade de Lisboa naquela mesma caleche com essa bela filha ao seu lado. Ninguém os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a aparecer em S. Carlos, fazendo uma impressão—uma impressão de causar aneurismas, dizia o Alencar! Quando ela atravessava o salão, os ombros vergavam‑se no seu deslumbramento de auréola que vinha daquela magnífica criatura, arrastando com o passo de deusa a sua cauda de corte, sempre decotada como em noites de gala, e, apesar de solteira, resplandecente de jóias. O papá nunca lhe dava o braço: seguia atrás, entalado numa grande gravata branca de mordomo parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na claridade loira que saía da filha, encolhido e quase apavorado, trazendo na mão o óculo, o libreto, um saco de bombons, o leque e o seu próprio guarda‑chuva. Mas era no camarote, quando a luz cata sobre o seu colo ebúrneo e as suas tranças de oiro, que ela oferecia verdadeiramente a encarnação de um ideal da Renascença, um modelo de Ticiano… Ele, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara, mostrando‑a a ela e às outras, as trigueirotas de assinatura:

—Rapazes! É como um ducado de oiro novo entre velhos patacos do tempo do senhor D. João Vl!

O Magalhães, esse torpe pirata, pusera o dito num folhetim do “Português”. Mas o dito era dele, Alencar!

Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios. Mas nunca naquela casa se abria uma janela. Os criados interrogados disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava Manuel. Enfim uma criada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem era taciturno, tremia diante da filha, e dormia numa rede; a senhora, essa, vivia num ninho de sedas todo azul‑ferrete, e passava o seu dia a ler novelas. Isto não podia satisfazer a sofreguidão de Lisboa. Fez‑se uma devassa metódica, hábil, paciente… Ele, Alencar, pertencera à devassa.

E souberam‑se horrores. O papá Monforte era dos Açores; muito moço, uma facada numa rixa, um cadáver a uma esquina tinham‑no forçado a fugir a bordo de um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da Casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas ilhas, encontrara lá o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando pelo cais, de chinelas de esparto, à procura de embarque para a Nova Orleães. Aqui havia uma treva na história do Monforte. Parece que servira algum tempo de feitor numa plantação da Virgínia… Enfim, quando reapareceu à face dos céus, comandava o brigue “Nova Orleães’’, e levava cargas de pretos para o Brasil, para a Havana e para a Nova Orleães.

Escapara aos cruzeiros ingleses, arrancara uma fortuna da pele do africano, e agora rico, homem de bem, proprietário, ia ouvir a Corelli a S. Carlos. Todavia esta terrível crónica, como dizia o Alencar, obscura e mel provada, claudicava aqui e além…

—E a filha?—perguntou Pedro, que o escutara, sério e pálido.

Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim tão loira e bela? Quem fora a mamã? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar‑se com aquele gosto real no seu xale de Caxemira?…

—Isso, meu Pedro, são mistérios que jamais pôde Lisboa astuta devassar e só Deus sabe!

EÇA DE QUEIRÓS, Os Maias

QUESTIONÁRIO:

1. O texto gasta-se todo na elaboração de dois retratos: o de Alencar e o de Maria Monforte.

Mostre que a caracterização directa de Alencar está de acordo com a sua caracterização indirecta.

1.2. Que espécie de personagem é esta e qual a sua função na economia da obra?

1. 3. A caracterização de Maria Monforte processa‑se em três planos (a três níveis).

1.3.1. Como é apresentada esta personagem no primeiro plano? Este retrato representa a maneira de ver de quem? Será um retrato clássico, realista ou romântico?

1.3.2. Donde provêm as informações que constituem a caracterização do segundo plano? Esta segunda caracterização é mais ou menos abonatória que a primeira? Justifique a resposta.

1.3.3. Procure mostrar, se está de acordo, que o terceiro plano da caracterização de Maria Monforte (o que proveio de uma devassa metódica) obedece aos princípios do romance naturalista, se atendermos à relação de causalidade que se supõe existir entre esta personagem e os acontecimentos futuros da intriga central.

2. Que pontos de vista do narrador pode detectar no texto?

RESPOSTAS

1.1. Alencar aparece‑nos claramente caracterizado como poeta romântico, quer directamente, no retrato traçado pelo narrador (“macilento”, “bigodes negros”, “vestido de negro’’, “dedos magros”, “anéis de cabeleira”, “voz grossa e lenta”, “pose de tédio”), quer indirectamente, pelas suas atitudes (“passava os dedos pelos anéis da cabeleira e pelas pontas do bigode”, “todo recostado e dando um puxão aos punhos’’, “o posta das Vozes de Aurora’’), atitudes estas que traduzem uma certa gravidade e solenidade enfáticas. O título do livro citado é também de nítido sabor ultra-romântico.

Mas onde a caracterização indirecta de Alencar é mais nítida é na sua linguagem. Veja‑se o tom caricaturalmente retórico da sua primeira fala: “Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os feitos principais? (Como se a pessoa em questão fosse uma célebre figura histórica!). Note‑se o tom empoladamente solene da segunda fala: “Por uma doirada tarde de Outono…” e da quarta: “Aí vai, meu Pedro, aí vai!’’. De notar ainda a linguagem um tanto cómica da terceira fala: “O quê! Sem saciar a avidez do meu lábio?…” (Tendência hiperbolizante em “saciar’’ e em “avidez’’ e estranho uso do singular pelo plural: “do meu lábio’’).

Mas após o aviso de Pedro, Alencar iria exprimir‑se já “numa linguagem cristã e prática”, embora essa linguagem lhe seja como que emprestada pelo narrador, em discurso directo livre. No entanto, é o próprio narrador que, em pleno discurso indirecto livre, cita ainda uma bizarra expressão do poeta: “uma impressão de causar aneurismas”.

Vimos portanto que (e é esta a técnica do romance realista) o comportamento da personagem (caracterização indirecta) confirma e está de acordo com o retrato antecipadamente traçado pelo narrador.

1.2. Alencar é caricatura do poeta ultra romântico. A sua função é a de simbolizar um romantismo exacerbado (uma espécie de último canto do cisne) em contraponto com a ideia nova do Realismo. Numa obra que teve como subtítulo “Episódios da Vida Romântica”, fica bem um representante da Literatura que formou, que educou a sociedade aqui satirizada.

1.3.1. No primeiro plano, Maria Monforte é analisada sob a óptica da sociedade. Alencar apresenta‑a (pela boca do narrador) segundo a maneira como era vista pela sociedade. Ressaltam portanto as qualidades objectivas, que deu mais nas vistas: “passo de deusa”, “cauda de corte”, “Sempre decotada’’, “resplandecente de jóias”, “colo ebúrneo”, tranças de oiro”. Mesmo as qualidades subjectivas são aquelas que ferem geralmente ma is a atenção da sociedade “ombros de deslumbramento de auréola “ magnifica criatura”, “claridade loira’’. Trata‑se portanto de uma visão de aparências e não em profundidade.

Apesar de umas certas aparências de idealidade, o retrato não é romântico, é, sim, nitidamente clássico. Atente‑se nas qualidades que apontam para a mulher deusa, a matrona de rara nobreza: “deslumbramento de auréola”, “resplandecente de jóias”, “claridade loira”, “colo ebúrneo”, “tranças de oiro” (note‑se que estas expressões sugerem todas efeitos cromáticos de claridade e não de sombra), “passo de deusa”, “cauda de corte”. Não há dúvida que este tipo, de mulher está dentro do ideal clássico, como directamente afirma o narrador: “encarnação de um ideal da Renascença”, “um modelo de Ticiano”. Se compararmos este retrato com o de Raquel Cohen (p. 13o), esse, sim, verdadeiramente romântico, teremos ocasião de ver a enorme diferença.

1.3.2. As informações que constituem a caracterização do segundo plano provêm da criadagem, e, se aparentemente pouco nos dizem, revelam, pelo menos, duas coisas que nada abonam em favor de Maria Monforte: Primeiramente, o chocante contraste entre a tristeza do pai que “tremia diante da filha e dormia numa rede” e a arrogância da filha, que “vivia num ninho de sedas”, depois, o facto de passar o dia a ler novelas. Tratava‑se evidentemente de novelas da época: românticas. Este pormenor, o único romântico, bastaria para explicar toda a vida aventureira desta personagem. E uma personagem—mãe, assim fútil e aventureira, serve perfeitamente ao romance positivista, para explicar o fracasso de seus filhos Carlos e Maria Eduarda.

1 .3.3. Só indirectamente é que se caracteriza aqui Maria Monforte. Quem é caracterizado é o pai: assassino e possuidor de grande fortuna “arrancada à pele dos pretos”. Da mãe de Maria, nada se sabe. O texto faz parte da intriga secundária de Os Maias, que, segundo a técnica do romance naturalista, nos apresenta antecedentes genéticos, ou hereditários, que explicam de alguma forma o procedimento das personagens centrais (neste caso Carlos e Maria Eduarda, filhos de Maria Monforte). Na realidade, esta Maria Monforte está admiravelmente talhada para mãe de duas personagens como Carlos e Maria Eduarda.

2. Quanto ao ponto de vista do narrador, encontramos no texto a focalização omnisciente no que toca à caracterização de Alencar. Com efeito. o narrador sabe tudo a respeito de Alencar, até sabe o que ele pensa (“vendo o violento interesse de Pedro”, “isso não sabia o amigo Alencar”). No que diz respeito, porém à caracterização de Maria Monforte, estamos perante uma focalização interna, pois o narrador, quase sempre em discurso indirecto livre, assume o ponto de vista de Alencar.




[1] In António Borregana, O Texto em Análise, 1984, Edição do Autor, pag.s 99

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